15/03/07 – No hospital.
Rio, 15 de março de 2007
Iletradíssimo Sr. Dr. Presidente Lula.
Osrto dia, eu tava na feira dos paraíba em São Cristóvão a aí os amigos, que sabia que vorta e meia troco um dedo de prosa por carta com Vós Missê, começaram a mangar de eu, dizendo que se os amigo do presidente era tudo ladrão e cabra da pesta, eu também era.
Dizê que eu sou um ladrão cabra da peste, eu inté aceito a modo de não ter que bate nos otro. Mas fala mal de Vós Missê, isso não agüento não sinhô.
Daí grieti: "quem for meu amigo de vera, e conterrâneo macho, me siga. Vamo dá uma lição nesse povo da língua froxa e mardosa." Nem olhei pra trás pra ver quantos me seguiu. Peguei um porrete ingeitado que tinha no pé de uma barraca e parti pra riba do povo. Aí chegeui no meio do povo e gritei: "quem não for frozô pode se prapra para briga." Divia de ter mais de quinze cabra que abriu a roda cum medo de apanha. Escolhi o primeiro e lasquei o porrete com toda força que meu Padim me deu. E despois....ah pois, adespois antonse num me lembro de mais nada.
Acordei nu chão de um hospitar. Acho que devo ter arrebantado pelo menos uns dez de pancada. Pruque eu tava todo quebrado e cheio de dô. Pensei, se eu tava daquele jeitcho fiquei inté com pena dos outro que eu bati. Devo ter batido muitcho. Só fiquei procupado com os meus companheiro e conterrano, pruque num encontrei nenhum no hospitar. Também num vi nenhum dos cabra que entraram na pancada. Devem di ter ido prum hospitar que trata dos cabra muitcho arrebentado.
Mais aí antonse fiquei lá descansando no chão do hospitar quais um dia e uma noite, inté que veio um doto. Ele mi olhou, aparpou e disse que tava muitcho ruim a minha situação. Ruim pruque eu tava todo quebrado e pior ainda pruque o hospitar num tinha um tar de raio-x, nem remédio pra dô, nem gaze, nem atadura, nem nada e que o doto que conserta ossos quebrado só ia vim adespois de amanhã.
Aí o doto pregunto se eu tinha sido atropelado por um caminhão ou por onibus. Eu contei a istóra todinha pra ele. Aí ele disse: “é graças ao seu amigo Lula, que o hospitar ta nesse estado de caristia.”
Eu num guentei. Quais arrebentei o doto também. Mas veio uma infermera magrinha que me segurou e disse que se eu não ficasse quieto, nem de come e beber eu ia ganha. Bom, aí Vós Missê mi discurpa, mas eu quietei e eles me levaram pra infernaria. Lá tinha gente dimais. Tinha nas cama, tinha no chão, tinha em colchão e pra mim sobrou ficar debaixo de uma cama. Tava frio e muitcho fedido. Mas eu tava com muitcha dor e deitei. Deitei mas num consegui assossegar. O fedor de carniça tava dimais.
Mas pru sorte discobri que o conterrâno que tava na cama de cima, tava era morto e que o fedor de carniça era da perna do moço. Aí troquei de lugar com ele e ninguém percebeu. Foi bão e foi ruim. Foi bão pruque a cama era mais macia e quente que o chão. Foi ruim pruque eles quiseram cortar fora minha perna pensando que eu era o conterrâneo da perna ruim.
Mas eu não deixei. Quando eles bobio, e foi prucurá um nengócio que tava em farta, eu levantei da mesa e cuma sou muitcho esperto fugi. To me curando com implastro de saião, uma garrafada e um gole daquela branquinha que eu sei que Vós Missê gosta muitcho.
Pur isso tô iscrevendo pra Vós Missê. É pruque tenho certeza que Vós Missê num sabe que naquele hospitar que eu fui tem aquele médico que diz que tá tudo quebrado e faltando e é pru curpa de Vós Missê. Eu si fosse o inhô, mandava uns macaco lá e da um coro naquele safado a modo dele aprender a respeitar o Presidente da Repúbrica. E vai vê, tudo que tá fartando, deve di ta na casa do safado. Se Vós Missê quise, quando eu fica bão, volto lá e do um coro nele e bato inté ele confessá que o hospitar era bão inté o dia que ele foi trabaia lá.
Um grande abraço pra Vós Missê e minhas lembranças a patroa.
Seu criado Nércio.
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