23/11/07 – TV digital. Quem ganha?
Brasil, Energia, Opinião, Política
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, o Brasil tem 187 milhões de habitantes, distribuídos em 42 milhões de domicílios.
Ainda segundo o IBGE, 90,3% desses domicílios têm pelo menos um aparelho de televisão. Ou seja, são no mínimo 38 milhões de aparelhos de TVs espalhados Brasil afora, sem considerar as residências que têm mais de uma televisão, nem os aparelhos instaladas em estabelecimentos comerciais ou outros locais.
Sem entrar no mérito da péssima qualidade do conteúdo da TV aberta, esses números permitem concluir que a televisão se tornou praticamente um bem de consumo essencial para o brasileiro.
Há algum tempo, a mudança do padrão digital da TV aberta vem sendo discutida no Brasil. Os argumentos a favor dessa mudança são muitos, porém pouco convincentes para um país de uma população empobrecida e carente de tantas outras necessidades.
As vantagens vão desde a melhoria do sinal, mais definição na imagem, inexistência de interferências, ruídos, fantasmas ou chuviscos, interatividade e aumento da tela para o formato “widescreen”. Algumas dessas “vantagens” a maioria dos brasileiros não entendem nem ambicionam.
Até aqui, é tudo parece aceitável.
Talvez o melhor argumento a favor a TV digital seja a questão de uma corrida tecnológica da qual o Brasil não pode deixar de participar.
Mas agora vem o lado nebuloso da questão. Os 38 milhões de aparelhos existentes nos lares brasileiros terão que ser adaptados. Inicialmente o presidente Lula anunciou que os adaptadores chamados de “set top boxes” custariam R$ 200,00. Quase o preço de uma TV comum.
Considerando o valor atual de uma televisão, esse preço já seria imoral. Mas a situação é pior uma vez que o preço anunciado é uma ficção. Os conversores mais baratos disponíveis no mercado estão na faixa de R$ 1.100,00. Algumas empresas já informaram que talvez possam fornecê-los ao módico preço de R$ 600,00. Pior ainda, uma TV no padrão novo custa de R$ 7.000,00 a R$ 13.000,00. O preço está em queda é possível chega a estabilizar numa faixa mais baixa, da ordem de R$ 2.000 a R$ 8.000.
Se o Brasil tivesse uma população com alto poder aquisitivo, talvez fosse aceitável empurrar conversores ao preço de R$ 200,00, quase uma TV. Mas falar em R$ 600,00 ou R$ 1.100, beira a imoralidade.
Segundo o IBGE, dos quase 80 milhões de brasileiros que trabalham praticamente 80%, ou seja, 64 milhões têm renda de 1/2 até 3 salários mínimos.
Sendo a TV um bem de consumo quase essencial na vida do brasileiro, é certo que os conversores serão comprados ao preço que for. A diferença talvez seja o número de prestações.
Aí veio a brilhante solução de disponibilizar verbas do BNDES para financiar os conversores. Nada mais absurdo. Do ponto de vista de uma população empobrecida e cronicamente pendurada em crediários, esse será apenas mais um aperto no nó da forca.
Do ponto de vista das empresas envolvidas na fabricação e comercialização é uma solução mais que ótima, pois lhes permitirá vender conversores sem que tenham a preocupação em reduzir custos.
Ainda que os conversores cheguem a baratear e possam ser vendidos pelos R$ 200,00 anunciados pelo presidente Lula, estamos falando de um negócio que renderá a indústria no mínimo R$ 200,00 x 38 milhões. Ou seja, R$ 7,6 bilhões. Numa estimativa mais realista, considerando o número total de TVs instaladas no país e conversores vendidos pelos valores anunciados, é um negócio da ordem de R$ 25 bilhões.
Isso considerando apenas os conversores e a população atual. Na prática como a questão da implantação do padrão é irreversível e 2016 é o ponto final da história, muitos optarão pela compra de TVs novas, ainda que tal represente assumir pesadas prestações a perder de vista. A indústria de eletro-eletrônicos certamente já tem um estudo que mostre quão rentoso será esse filão. A substituição de todas as 38 milhões de televisões a um preço médio de R$ 3.000 eleva o negócio a uma soma de R$ 114.000 bilhões.
Caso, por outro lado, o custo não chegue a baixar, é certo que o país seja invadido por conversores piratas de qualidade duvidosa.
Seja como for, colocando vantagens e desvantagens numa balança, parece óbvio que grande parte da população brasileira só tende a perder.
Vale lembrar, que a questão da qualidade do sinal, até então, pouco ou nada representou para a esmagadora maioria de brasileiros, que certamente está satisfeito com o que existe, e têm outras prioridades como saúde, segurança, educação e infra-estrutura.
É estranho que justo um governo que se diz preocupado com o povo, eleja uma prioridade tão secundária e conduza a transição de forma tão onerosa justamente para o povo mais carente de necessidades básicas. Um negócio tão promissor para a indústria teria que ter uma solução menos dolorosa para o bolso do povo.
Na prática o que o governo está promovendo é pior do que uma venda casada, onde o consumidor ao comprar um produto é obrigado a levar um segundo.
No nosso caso não desejamos comprar nada, mas estão nos empurrando um bem a um custo inaceitável. Não chega a ser um imposto, mas é quase uma imposição.
Diante de cifras tão elevadas e um resultado tão negativo para o povo, paira até a dúvida sobre a lisura da condução do processo de escolha e implantação do novo padrão.
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