27/11/07 – Bahia: Desastre no estádio Fonte Nove.
Brasil, Defesa Civil, Desgoverno, Opinião
Um jogo de futebol, que deveria ser apenas um lazer de domingo se transformou em mais uma tragédia.
Parte da arquibancada desabou ceifando a vida de 7 torcedores e deixando mais de 50 feridos.
O desastre é mais um de uma seqüência que vêm acontecendo em estádios brasileiros em decorrência de um fenômeno chamado NEGLIGÊNCIA.
Os estádios brasileiros mais antigos têm sofrido de crônica falta de manutenção, ou pior, têm recebido obras de maquiagem que escondem o real estado de deterioração de suas estruturas.
Os estádios brasileiros projetados até 1999 seguiram as prescrições da norma NB1-78 e a esmagadora maioria, senão a totalidade é de concreto armado.
O concreto armado é um material de construção de boa longevidade, desde que receba exista controle de qualidade na construção e manutenção adequada.
As imagens do desastre divulgadas pela mídia, mostram um estado de deterioração avançado do concreto, com corrosão generalizada do aço e lesões decorrentes de infiltrações, encunhamento e carbonatação do concreto. Traduzindo para o português – concreto armado deteriorado sem manutenção.
A perícia técnica poderá até encontrar outra origem para o desabamento. Mas se o estado geral de deterioração não foi à causa, num futuro próximo esta com toda certeza causaria desastre de proporções maiores.
A versão que já corre em rádios que os estádios não foram dimensionados para pessoas pulando nas arquibancadas, não é aceitável como argumento técnico para o desabamento da forma que ocorreu.
Aqui cabe uma explicação mais detalhada.
A norma brasileira, Cargas Para Cálculo de Estruturas de Edificações - NBR 6120 determina que o projeto de arquibancadas considere uma sobrecarga de 400 kg/m2. Segundo a norma essa carga é considera estática. Na realidade, atualmente essa carga é dinâmica em decorrência da mudança de comportamento do torcedor que deixou de ser “comportado” e agora faz movimentos coletivos como a onda e pulos cadenciados.
Nos estádios modernos, apesar da norma de carga não ter sido alterada, os calculistas costumam considerar a carga dinâmica.
Na década de 90 o Maracanã passou por ensaios e foi monitorado, concluindo-se que o fato do comportamento do público ter modificado, demandava ou o reforço da estrutura ou restrição da lotação do estádio. O Maracanã efetivamente foi reforçado.
Mas o risco que a carga dinâmica impõe às estruturas não é de um desabamento local com as características desse que ocorreu, e sim de um colapso de maiores proporções.
Por todos esses motivos os estádios que não foram reforçados deveriam ter a lotação restrita a 70% da capacidade original ou menos.
Mas essa restrição não tem qualquer relação com manutenção. Ou seja, a manutenção da integridade do concreto armado continua sendo fundamental, independente da restrição da capacidade dos estádios antigos, não reforçados.
É exatamente nesse ponto que houve uma negligência de todos os responsáveis.
O Estádio já havia sido inspecionado por técnicos que recomendaram sua interdição.
A promotora de Justiça do Consumidor Joseane Suzart declarou que o Ministério Público baiano já vinha tentando a interdição do estádio da Fonte Nova, desde janeiro de 2006.
Segundo ela, a interdição foi pedida em uma ação civil pública, encaminhada à 2ª Vara Especializada de Defesa do Consumidor. A requisição, que tinha como réus a Superintendência de Desportos da Bahia - Sudesb, administradora do estádio, e o Esporte Clube Bahia, até hoje não foi julgada.
A juíza da 2.ª Vara Especial de Defesa do Consumidor de Salvador, Licia Pinto Fragoso Modesto, responsável pelo processo, deu uma entrevista patética na qual alegou desconhecer o processo, pois na época em que a ação foi distribuída ela estava de férias. Foram necessárias sete mortes para que ela tomasse conhecimento do processe e o despachasse.
O governador do Estado da Bahia, Jaques Wagner (PT) lamentou o ocorrido. Mas, quer queira, quer não, é responsável. Agora de forma açodada quer demolir o estádio, no que deve ser impedido até que a perícia técnica seja concluída.
O secretário de esportes, Nilton Vasconcelos declarou que o fato de uma pedaço da estrutura ter desabado “é absolutamente inexplicável”.
Temos, portanto, um crime com 7 mortos, mais de 50 feridos e uma lista de pessoas que de uma forma ou de outra, têm relação com o ocorrido. Todos, porém, se esquivam ou usam a clássica e inaceitável justificativa “eu não sabia que...”
Espera-se agora, depois de 7 óbitos e 50 feridos, que a justiça seja menos cega e negligente.
Mas a questão é muito mais grave pelo fato desse estádio ser apenas uma amostra dos muitos que existem no Brasil e nunca passaram por uma obra de recuperação estrutural.
O problema deixou de ser local e demanda uma administração federal. É imprescindível, a bem da segurança dos torcedores e da imagem do Brasil, que o ministro do desporto determine de imediato à redução da capacidade de todos os estádios com mais de 10 anos de existência.
Num segundo momento é necessário que todos os estádios passem por uma avaliação estrutural e sejam recuperados.
Por último seria aconselhável que os estádios sejam reforçados de forma a suportar cargas dinâmicas.
Se nada for feito, ou ficarmos nas lamentações e discursos, em breve teremos outro desastre.
Gostou do que leu? Não deixe de assinar nosso RSS feed!
- Leia também:
- 19/03/08 – Epidemia de dengue? Não, um desastre!
- 25/04/08 – Terremoto: que riscos corremos?
- 08/02/08 – Chuva e tragédia em Itaipava. Deus é o culpado?
- 21/12/07 – Patrimônio Artístico e Cultural: negligência criminosa.
- 09/08/09 – Hospital Escola São Francisco de Assis
- 14/04/08 – Dengue e H5N1
- 22/05/08 – Angra III vale o investimento e o risco?
- 14/06/07 – Patrimônio Artístico e Cultural: negligência criminosa II.
- 21/04/08 – Um crime abala, o genocídio não.
- 16/12/07 – Ébola, terrorismo e humanidade.
Enviar por e-Mail
Imprimir




