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05/12/07 – O Brasil está formando hoje os marginais de amanhã.

Em 05 de dezembro de 2007 às 5:06 | por Bruno Engert Rizzo | 420 leitura(s)
Brasil, Ensino Público, Opinião, Politicas Públicas

O Brasil teve um desempenho medíocre entre 57 países e territórios, avaliados no Programa Internacional de Avaliação de Alunos – Pisa de 2006, desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Os estudantes de escolas públicas e particulares ficaram na 54ª posição em matemática e 49ª em leitura. Em ciências a situação não é muito melhor. O estudo testou as habilidades de mais de 400 mil estudantes nos 57 países que, juntos, correspondem a cerca de 90% da economia mundial. O relatório completo em dois volumes, está disponível em http://www.oecd.org/dataoecd/30/17/39703267.pdf.

Esse resultado deveria acender luzes vermelhas e disparar sirenes de alerta em todos os órgãos que lidam com ensino e educação, pois têm íntima ligação com grande parte das dificuldades pelas quais o país vem passando.

Talvez a questão mais relevante, seja que indiretamente a política de educação do país esteja formando marginais. A afirmação parece chocante, mas o fato é que no mundo atual existe cada vez menos espaço para indivíduos mal formados e semi-analfabetos e que o crime organizado é grande contratante de mão de obra desqualificada.

A política educacional brasileira enveredou por um caminho inaceitável cuja meta final é apresentar estatísticas. Assim, o grande esforço dos governos tem sido garantir vagas em escolas e empurrar os alunos para fora com diplomas.

O objetivo maior e realmente relevante que seria formar cidadãos para que possam ter oportunidades na vida e dar suporte ao crescimento da economia brasileira,  passou a ser secundário ou até irrelevante.

Com isso foi criado um segundo problema. Esses indivíduos mal formados não conseguem ingressar numa universidade. Mais uma vez a solução foi equivocada. O governo em vez de criar a condição de igualdade de oportunidade através de um ensino fundamental de boa qualidade, resolveu empurrar esses indivíduos para dentro de universidades através de uma imposição de cotas.

Não existem estatísticas quanto ao resultado dessa política. Mas é certo que o mercado de trabalho refute mão de obra mal formada ou absorva esses profissionais em funções de nível elementar ou de segundo grau.

Essa é a melhor das hipóteses. A mais provável é que a grande maioria desses indivíduos que têm um diploma de primeiro e segundo graus, mas mal sabem ler, escrever ou fazer as operações elementares, tenham um destino mais lamentável.

Diante da falta de oportunidades e de perspectivas de evolução praticamente nulas, esses indivíduos se tornem alvo prioritário e preza fácil do crime organizado.

O crime tem características sedutoras. Não é exigente quanto grau de alfabetização e propicia remunerações mais altas que aquelas oferecidas pelo mercado de trabalho formal, em condições de igualdade de desempenho escolar. Além disso, a ascensão pode ser rápida, o que pode trazer poder e sucesso, dificilmente alcançáveis num mercado de trabalho formal, competitivo e exigente quanto à formação.

Esse é um dos fatores que transforma segurança pública num problema de origem social.

Enquanto as escolas não prepararem cidadãos para o mercado de trabalho, estarão aumentando as fileiras para o alistamento no crime organizado.

Mas existe outro fato preocupante que deveria estar chamando atenção das autoridades ligadas à educação.

O Brasil precisa crescer e o crescimento demanda mão de obra.

Atualmente já existe uma carência de mão de obra qualificada em praticamente todos os setores produtivos e um excedente de mão de obra desqualificada.

Essa carência tem levado o Brasil a importar mão de obra estrangeira em diversos setores.

A má formação evidenciada pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos representa, portanto, um obstáculo para o crescimento e desenvolvimento do país.

Tudo isso parece bastante óbvio para pessoas comuns como nós, mas por alguma razão não tem sensibilizado presidentes, governadores e prefeitos ou mesmo profissionais envolvidos com a elaboração da políticas públicas de ensino.

A história tem provado que outros países deram saltos gigantescos quando investiram na educação.

No Brasil, parece não ter chegado à hora, até porque o próprio presidente se orgulha de ser mal letrado e sua política pública de educação se resume a discursos, segundo os quais o Brasil será um dos melhores países do mundo em termos de ensino.

Além disso, quando se fala em planejamento, nosso horizonte é no máximo o fim do mandato, muitas vezes nem isso.

Em especial esse governo, optou por atuar pontualmente nos sintomas de problemas crônicos, quando eclodem em forma de crises.

No caso da educação não existe uma crise que leve a greves, protestos, desastres ou indignação e portanto não há a eclosão de uma crise como a do setor aéreo.

O desastre virá nas próximas décadas quando o impacto dessa política mediocre se fará sentir de forma dolorosa na economia e na sociedade.

Ao que tudo indica teremos que aguardar um próximo presidente e ter esperança  que este encare o ensino como uma prioridade real.

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