23/01/08 – Rio: Polícia bandida ou bandido polícia?
Brasil, Opinião, Politicas Públicas, Segurança Pública
O jornal OGLOBO de hoje trouxe duas matérias sobre assuntos distintos que, entretanto, convergem para um único problema.
A primeira matéria aborda uma conspiração de policiais da PM para assassinar um major da própria corporação que vinha fiscalizando o transporte pirata. Como todos, menos as autoridade de segurança pública sabem, o transporte alternativo está permeado por policiais corruptos que exploram a atividade na mais absoluta ilegalidade, se valendo do conhecimento dentro da corporação e de truculência e de crimes para demarcar áreas e eliminar a concorrência.
A segunda matéria ocupa ¼ de página com uma foto de policiais fardados saqueando um caminhão de bebidas da Brahma, utilizando inclusive viaturas oficiais.
Essa não é a primeira vez que maus policiais são flagrados praticando atos ilícitos e mesmo crimes. Também não é a primeira vez que fatos como esses ganham matérias de capa ou destaque na mídia.
A questão é que crimes e atos ilícitos cometidos por policiais estão se tornando freqüentes demais.
As autoridades sempre foram e continuam sendo extremamente permissivas e negligentes no trato da questão.
O Rio de Janeiro já vive uma situação de caos e descontrole na questão da segurança pública. O crime organizado tem humilhado o Estado e a população demonstrando poder e colocando em evidência a incapacidade do Estado de assumir o controle da situação.
O fato da polícia estar permeada de maus policiais é um agravante, pois mina a eficiência das ações policiais, reduz a capacidade do Estado de combate ao crime e piora as estatísticas do crime em decorrência da ação de policiais bandidos.
A polícia está tão infiltrada de bandidos fardados que chega ao absurdo de ganhar num único dia, duas matérias de destaque com crimes envolvendo policiais.
Esse é o péssimo indício de um fato que já deveria ter sido percebido. A polícia é uma corporação doente e precisa de uma reforma que vem sendo adiada há décadas.
Uma parte do problema é social e cultural e vem de longa data. Mudar a cultura de uma corporação é um trabalho demorado e difícil. Demanda uma reestruturação que precisa iniciar no processo seletivo com maior ênfase na avaliação psicológica e social, passar pelas academias e terminar no sistema de nomeações e promoções. As nomeações de comandantes por quaisquer outros critérios, que não a competência e reputação, precisam ser banidas.
Contudo, existem mais dois aspectos fundamentais.
Se vivemos uma crise na segurança pública, a polícia precisa ser uma corporação exemplar. Tolerar desvios de conduta nesse momento representa minar a própria eficiência, colocar em risco bons policiais e mesmo a própria a sociedade.
Nesse aspecto a responsabilidade é inteiramente do governador. Cabe a ele nomear seus assessores e cobrar resultados.
O governador nomeia o secretário de Estado de Segurança Pública, o chefe da Polícia Civil, o comandante da Polícia Militar e estes escolhem seus subalternos de acordo com os resultados desejados.
Se o resultado desejado é fazer caixa II para a próxima campanha eleitoral, basta nomear subalternos corruptos para postos chaves.
Por outro lado, se a ordem for promover uma limpeza na polícia, a solução é escolher profissionais competentes, exigentes e coadunados com esse objetivo, dando-lhes poder, apoio e meios para que cumpram a missão.
Numa organização militar todos sabem quem é quem, principalmente entre oficiais que formam o esteio moral da corporação.
Na Polícia Civil, assim como na Polícia Militar ou em qualquer instituição pública, existem excelentes profissionais. Via de regra seu mérito é pouco reconhecido, pois como profissionais que são, não aceitam conchavos e só agem dentro do rigor da lei, o que muitas vezes é um entrave para políticos.
Se a polícia está doente é hora de colocar no comando policiais competentes da chamada “linha dura”, de reputação ilibada e acima de qualquer suspeita.
Por último existe a questão financeira. Enquanto a polícia for mal remunerada o Estado estará chocando os ovos da serpente.
Chegamos ao fundo do poço. A população teme a polícia, o crime envolvendo policiais bandidos só tem aumentado e as autoridades agem como se fossem casos isolados de menor importância.
O próprio Comandante da PM coronel Ubiratan Ângelo por ocasião da prisão de 58 PMs do 15º Batalhão de Polícia Militar (Caxias - RJ) envolvidos com o tráfico, discursou afirmando que : o fato era “pequeno demais para macular a corporação”. Leia 26/09/07 - “São fatos pequenos demais para macular.”
O crime organizado está se estruturando de forma progressiva. Milícias comandadas por policias bandidos estão proliferando. Bandidos policias têm sido cada vez mais ousados e agido com o mais puro sentimento de impunidade.
A continuidade dessa política levará a segurança pública que agoniza no caos, à falência múltipla.
A sociedade precisa reagir e cobrar resultados.
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