08/02/08 – Chuva e tragédia em Itaipava. Deus é o culpado?
Brasil, Defesa Civil, Opinião, Politicas Públicas
Dizem que a história não se repete. Aparentemente essa regra universal não funciona aqui.
Todo ano, quando vem o período de chuva, as tragédias se repetem, pessoas choram perdas e as autoridades públicas com a maior desfaçatez culpam a chuva, como se essa não fosse um fenômeno natural e sim um monstro a pisar nas cidades e destruir tudo por onde passa.
A chuva em si não é uma ameaça e não representa qualquer risco. Pelo contrário, sem chuva praticamente não haveria vida.
A clássica desculpa que “num dia choveu tudo que deveria chover durante o mês” tecnicamente é inaceitável.
Qualquer projeto de engenharia leva em consideração fatores como tempo de recorrência e chuvas máximas.
Traduzindo isso representa que o fenômeno alegado na clássica desculpa, é levado em conta num projeto. As obras de engenharia são projetadas para fenômenos extremos que se repetem a cada intervalo de tempo que podem ser períodos de 50 anos ou mais.
A chuva não é a vilã.
Os verdadeiros responsáveis pelos desastres recorrentes são a população que promove a ocupação desordenada e as prefeituras que o permitem ou até incentivam.
A chuva não pode ser responsabilizada por nada.
A questão é que existe uma relação entre fenômenos naturais e a vulnerabilidade dos sistemas que os suportam.
Construções e infra-estrutura têm que ser projetados para o ambiente no qual serão implantadas. Logo, precisam ser planejadas para todos os fenômenos passíveis de ocorrência na região.
O que vem ocorrendo na grande maioria das cidades brasileiras é que as prefeituras têm sido negligentes ao extremo na fiscalização do uso do solo.
Essa negligência tem relação com incompetência administrativa, populismo e um pacto medíocre que tem orientado as políticas de prefeitos e vereadores Brasil afora. Em troca de votos fáceis, todos incentivam a ocupação desordenada ou na melhor das hipóteses fazem vista grossa para a mesma.
Desmatamento, escavação de encostas sem contenções adequadas, implantação de construções leigas, desvio do caminho das águas e impermeabilização de superfície são os fatores que geram grande vulnerabilidade.
Além disso, existe todo um sistema de drenagem e infra-estrutura que foram projetados para uma determinada vazão que tem relação com área de contribuição das bacias e absorção de água.
Por todos esses fatores, permitir a ocupação desordenada deveria ser tratado como crime ambiental e os prefeitos deveriam ser responsabilizados por desastres que decorram dessa ocupação.
Enquanto a chuva e Deus forem responsabilizáveis por tragédias como essa que ocorreu em Itaipava deixando um saldo de 9 mortos e 12 feridos, a história se repetirá.
Esse é o Brasil que precisa mudar.
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