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19/03/08 – Epidemia de dengue? Não, um desastre!

Em 19 de março de 2008 às 11:14 | por Bruno Engert Rizzo | 879 leitura(s)
Brasil, Desgoverno, Opinião, Politicas Públicas, Política, Saúde Pública

Há meses a dengue vem mostrando sua face mais sinistra. Apesar disso, ministro da Saúde e secretários de Saúde dos estados e municípios insistiam em se ater a definições técnicas para embasar declarações justificando que a situação não caracterizava uma epidemia.

Nem a União, nem os estados e muito menos os municípios, prepararam o sistema de saúde para absorver um eventual impacto do aumento do número de casos de dengue.

O resultado é que tecnicamente talvez a situação não configurasse uma epidemia, mas o inevitável aconteceu.

Em decorrência da resposta inadequada e da inércia do Estado, a epidemia se instalou e o já precário sistema de saúde entrou em colapso.

Não há leitos nem médicos e muito menos disponibilidade de recursos para exames laboratoriais que permitiriam diagnosticar a dengue com mais precisão e velocidade.

Se tecnicamente a epidemia não estava configurada, o desastre está. E não é força de expressão.

Tecnicamente a situação de desastre se caracteriza quando um sistema não tem capacidade de absorver um impacto.

O sistema de saúde é dimensionado para atender uma determinada população. Com base em dados estatísticos esse sistema precisa ser estruturado para atender essa população mantendo uma taxa de leitos disponíveis para emergências.

Assim, todo sistema de saúde pública deveria ter capacidade de absorver impactos, mesmo na rotina.

Entretanto, por negligência crônica das autoridades, essa reserva técnica do sistema já não existia. O sistema está sub-dimensionado e sucateado o que torna a rotina um desastre continuado. Diariamente pessoas têm o atendimento negado nas portas dos hospitais e precisam peregrinar pelo município ou até em outros municípios em busca de vagas. Muitos acabam retornando para casa sem atendimento e entregam o destino à sorte. Alguns sobrevivem, outros não.

A dengue é cíclica. Ou seja, sabemos que todo ano, num determinado período existe um aumento de casos. Se não houver um combate sistemático ao vetor, este vai aumentando sua área de ocorrência.

Há alguns anos médicos que acompanham a evolução da dengue vêm advertindo que a situação vinha piorando. Não só pelo fato do combate ao mosquito ter sido reduzido, mas também pelo fato de surgirem novas cepas de virus com maior índice de fatalidade.

A questão é que governos federal, estaduais e municipais tinham conhecimento do risco de uma epidemia e da incapacidade do sistema para absorver enfermos. Nem por isso foram além de gastar dinheiro com campanhas publicitárias ineficazes e fazer discursos.

O resultado aí está. A dengue que nos discursos do ministro, do governador e do prefeito não caracterizava uma epidemia, agora, segundo os especialistas, é uma epidemia. Pessoas estão morrendo, tendo o atendimento negado e o sistema de saúde está em colapso. Tudo previsível e mais do que provável diante das circunstâncias.

Houve negligência na prevenção, na preparação (fase que antecede um desastre) e na resposta.

E quais as providências das autoridades? Culpar as bromélias, o povo e discutir se tecnicamente estamos ou não diante de uma epidemia. A discussão é irrelevante e um desrespeito ao cidadão. Estamos diante de um desastre com o sistema de saúde sem capacidade de absorver as vítimas que chegam a taxa de mais de 1000 por dia. Enquanto as autoridades travam discussão tão inútil quanto imoral, pessoas estão indo a óbito desnecessariamente.

No início de seu primeiro mandato, Lula resolveu fazer teatro e picuinha com César Maia. Montou hospitais de campanha alegando que a saúde municipal era um desrespeito ao povo. Como se o estadual e federal fossem melhores. Feito o teatro, os hospitais foram desmontados e tudo voltou à rotina do caos.

Quando Sergio Cabral assumiu o governo estadual, também fez seu teatro. Visitou alguns hospitais estaduais e como se fosse possível alguém ser tão alienado, se declarou surpreso com o caos na saúde estadual. Promoveu demissões cinematográficas, mudou toda estrutura da secretaria de saúde e com isso se deu por satisfeito. Mas o caos continua rigorosamente o mesmo.

Enquanto o mosquito, aparentemente mais profissional trabalhava, nas três esferas não se não se fez nada além de teatro e discursos.

Há seis meses, quando tecnicamente era previsível que a dengue viria e que existia o risco de uma epidemia, já deveria existir um planejamento de logística e resposta, inclusive com treinamento de pessoal para tornar o diagnóstico mais seguro. A partir de um determinado número de ocorrências notificadas, o sistema entraria em operação com montagem de hospitais de campanha.

Há seis meses deveriam ter montado um gabinete de crise para evitar que a dengue se transformasse numa crise.

Só agora, com o caos instalado os governos anunciaram que adotarão medidas. Nessa altura essas medidas já serão pouco eficientes.

As perguntas que não querem calar são: ninguém será responsabilizado por não ter planejado? Ninguém será responsabilizado pelo serviço essencial – Obrigação de Fazer do Estado – negado à população? E as mortes, ficarão por isso mesmo?

Quantos óbitos, será que são realmente  necessários para mudar esse quadro deprimente de desgoverno, negligência, omissão, inexistência de planejamento e descaso?

Negligência e omissão são crimes e é exatamente o que está acontecendo.

O pior, é que em 2009 teremos a continuação desse show de horror e nada mudará.

Até quando o povo aceitará tudo isso de forma tão passiva?

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