03/04/08 – Amazônia Azul e Forças Armadas.
Brasil, Desgoverno, Opinião, Política, Segurança Nacional
O jornal OGLOBO de 31/03/08 publicou uma matéria de uma página sob o título “Amazônia Azul”.
Em resumo a matéria aborda as riquezas minerais existentes no fundo do mar, que são muito mais que o petróleo e o gás atualmente explorados.
Os recursos minerais já conhecidos e parcialmente mapeados são: ferro, níquel, manganês, carvão, estanho, ouro, diamante, calcário, fósforo e cobre, entre outros.
O fato não é novidade, pois o Governo Militar chegou a iniciar um programa de pesquisas geológicas na plataforma continental brasileira que foi interrompido na década de 70, não sendo retomado depois.
Em 1997 foi lançado o Programa de Avaliação da Potencialidade Mineral da Plataforma Continental Jurídica Brasileira (Remplac). Mas seu início só se deu em 2005.
Essa é a parte boa da notícia. A parte ruim, o jornal sequer aborda ou menciona.
Trata-se da Segurança Nacional.
Atualmente existem no planeta aproximadamente 6,6 bilhões de habitantes. (Referência julho de 2007).
Com essa população o planeta já esboça um quadro de escassez em diversas áreas.
A água potável, por exemplo, já não é suficiente para suprir a população mundial em quantidade adequada dentro de padrões de qualidade aceitáveis.
O petróleo talvez possa suprir a humanidade por mais 40 anos e o gás por 60.
Alimentos tendem a ser cada vez mais escassos, pois já não existem áreas agricultáveis disponíveis para ampliar a produção na escala requerida. Para expandir a agricultura seria necessário derrubar florestas nativas, cujo custo ambiental é inaceitável nos dias atuais.
Energia também é um dos gargalos da humanidade, pois a matriz energética global está mal equilibrada, tendo os hidrocarbonetos um peso de aproximadamente 70%.
Esse quadro só tende a se agravar, pois pelas estimativas mais otimistas a população mundial só estabilizará por volta de 2050 quando o planeta terá uma população que poderá variar de 8,5 a 11,0 bilhões de habitantes, dependo das taxas de fertilidade de cada país.
O referido estudo não menciona a riqueza biológica que é um capítulo a parte e também está sendo mapeada.
É precisamente nesse cenário que estará o Brasil. Um país cujo território é de 8,5 milhões de km2, com uma Zona Econômica Exclusiva de 3,5 milhão de km2 e uma Extensão da Plataforma Continental que poderá chegar a 1 milhão de km2.
Ao todo são 13 milhões de km2 de uma área rica em recursos naturais.
Com tanta fronteira, território, espaço aéreo e mar a ser vigiado e literalmente defendido de interesses estrangeiros ou mesmo de piratas e aventureiros, é inadmissível que as Forças Armadas continuem no processo de sucateamento em que se encontram.
Reaparelhar Forças Armadas não como é criar um PAC ou distribuir bolsa família.
É preciso desenvolver uma estratégia de defesa para então implantar um programa de reaparelhamento que não se resume a comprar meia dúzia de aeronaves e encomendar navios e tanques.
O reaparelhamento visando uma estratégia de defesa é um projeto de Estado que transcende governos.
Nesse projeto há que se avaliar até a necessidade do país desenvolver uma indústria bélica nacional para não ficar refém de empresas estrangeiras, que dependendo das circunstâncias ou conveniências podem cobrar caro ou mesmo sonegar equipamentos e material.
Convém reavaliar também a questão do desenvolvimento de armas nucleares defensivas. Esse item em particular, apesar de ser extremamente controvertido é de fundamental interesse.
Com a nossa dimensão continental, a única arma de dissuasão capaz de evitar eventuais intervenções estrangeiras, principalmente de forças mais fortes que as nossas forças de defesa, é um artefato bélico nuclear. O artefato nuclear torna a concentração de forças para uma eventual invasão uma empreitada de alto risco. Além disso, se necessário nega o uso do território ao inimigo. Com armamento convencional não há como obter esse poder de interdição a um custo aceitável.
Aqui vale lembrar que exemplos não faltam. A invasão do Iraque demandou uma concentração de 140.000 homens e toneladas de equipamentos. Só foi viável pela certeza da inexistência de um artefato bélico nuclear. Já a Coréia e o Iran, continuam apenas a ser ameaçados mas dado o fato de existir grande probabilidade de disporem de artefatos bélicos nucleares, torna a aventura arriscada.
Há décadas o país está entregue a grupos revanchistas que, com visão tacanha e míope, entendem que precisam castigar as forças armadas como se as instituições fossem responsáveis por excessos cometidos por alguns de seus representantes.
O reaparelhamento das Forças Armadas tem sido tratado como prioridade secundária e de forma simplória.
Na verdade o assunto só vem à baila em crises, quando presidente, ministro da defesa e outros palpiteiros ligados ao governo discursam e prometem comprar aviões, tanques e submarinos.
Mas nem isso acontece. As promessas são esquecidas e a cada ano mais equipamento é descomissionado, sucateado ou abandonado nas OMs por falta de manutenção.
Aqui vale lembrar a situação em que o Brasil se encontrava quando a Segunda Guerra eclodiu. Nossas Forças Armadas estavam tão desequipadas que o poder de defesa era praticamente nulo.
Quando o Brasil se alinhou com as forças Aliadas à costa brasileira estava completamente desguarnecida e os submarinos das forças do Eixo passeavam livremente de norte a sul escolhendo e torpedeando navios brasileiros sem que houvesse a mínima possibilidade de defesa.
A negligência nos custou 34 navios mercantes, 1081 mortos e toda carga que os navios transportavam.
Em terra a situação não era muito melhor. O chamado Saliente Nordestino era ponto estratégico para garantir a travessia do Atlântico e existia a ameaça de uma invasão de forças do Eixo. O Brasil sequer tinha uma unidade blindada para estruturar uma defesa.
A própria Força Aérea Brasileira só foi criada em 1941. Antes existia uma aviação naval e outra do exército.
Não fosse a necessidade estratégica dos Estados Unidos em construir uma base em Natal, talvez tivéssemos sido abandonados à própria sorte e não haveria a menor chance do Brasil se opor às forças do Eixo.
Depois, em 1963 tivemos também o incidente diplomático que ficou conhecido como Guerra da Lagosta. Não chegou ao conflito pelo fato do Brasil ter deslocado uma Força Tarefa Naval para a área e sinalizado com a firme intenção de não ceder. Esse incidente é o exemplo típico da importância de uma força dissuasória na solução de crises decorrentes de interesses comerciais.
Esse breve histórico serve apenas para lembrar que já fomos pegos desprevenidos uma vez. Agora estão em jogo grandes interesses e recursos que serão cada vez mais preciosos e cobiçados.
Se não existirem uma estratégia de defesa e Forças Armadas equipadas e preparadas, corremos sério risco de novamente sermos surpreendidos.
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