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10/04/08 – Uma ópera chamada Brasil.

Em 10 de abril de 2008 às 11:32 | por Bruno Engert Rizzo | 475 leitura(s)
Brasil, Geral, Opinião, Política

Dizem que no Brasil tudo acaba em samba.

Talvez assim fosse, em outra época, quando malandros freqüentavam a Lapa e a delinqüência política era enrustida.

Atualmente mais parece que estamos assistindo a uma ópera.

Mas porque uma ópera e não um samba ou outro ritmo? O samba é a expressão da alegria, uma ode à vida.

Já a ópera é uma encenação dramática cujo final é trágico.

Nas últimas décadas governo e povo se uniram, escreveram o libreto e agora ensaiam uma grande tragédia chamada Brasil.

Lamentavelmente essa ópera não se compara às obras primas de Wagner, Bizet, ou Verdi. Também não é um espetáculo para ser assistido no conforto de uma casa de ópera.

O palco é o país, onde povo e governo juntos formam o corpo de artistas que têm ensaiado o espetáculo à exaustão.

O cenário principal é uma cidade suja, com ruas esburacadas e elameadas, e o povo se amontoando em torno de um palanque.

O prelúdio é uma grande festa com fanfarras, festejos e o povo nas ruas acreditando que aquela seria a grande virada. Do dia pra noite a miséria seria banida do país. Pobres ficariam ricos e burgueses finalmente seriam apeados do pedestal e atirados em masmorras. Pelo menos esse era o discurso que empolgava e levava a massa ao delírio coletivo.

Para os ricos, a história é outra, mas só é contada nos bastidores.

Ainda no primeiro ato, o vilão e seus conselheiros mostram a que vieram.

Mas como num ato bem ensaiado, o povo continua embevecido e se mostra ingênuo ao extremo. Continua acreditando na fórmula mágica da transformação. Finalmente surgiu uma Fada Madrinha para o povo-Cinderella.

Enquanto o vilão, um bufão analfabeto promete, o povo sonha.

Sonha acordado e vê o prometido Brasil dos 10 milhões de empregos, o grande canteiro de obras, o melhor ensino do mundo, a saúde pública próxima do ótimo, salários decentes, uma explosão de crescimento entre outras mil maravilhas nunca ocorridas na história desse país.

Fim do primeiro ato. A orquestra executa uma música num ritmo alegro e o povo vai ao delírio.

O segundo e último ato inicia com a mesma empolgação.

Enquanto de um lado as maravilhas “nunca antes na história desse país” continuam sendo anunciadas o povo aplaude.

No cenário ao fundo passam figuras mal encaradas com cuecas estufadas de dólares, malas de dinheiro, dossiês, mensalões, cartões corporativos e outras imundices. Mas o povo anestesiado só consegue prestar atenção nos discursos.

As cenas ao fundo são percebidas mas o povo vê até certa comédia nos tipos estranhos que se esgueiram pelo cenário. Vez por outra alguns mal encarados se aproximam dos vilões no palanque, lhes cochicham palavras aos ouvidos e deixam maços de dinheiro que acabam espalhados no chão por já não caberem nos bolsos, nas cuecas ou nos paletós.

Até que despenca um avião mas a orquestra aumenta o volume da música. O povo vê a cena, mas o ato principal no primeiro plano com um bufão semi-analfabeto fazendo trocadilhos infames, magnetiza a todos. A claque de conselheiros ri e o povo cai na gargalhada.

Em seguida aparecem figuras enlutadas carregando caixões de crianças vítimas da dengue. Alguns figurantes do povo na primeira fila tombam inertes. Mas o restante dos figurantes ovaciona o bufão.

Eis que no auge dos aplausos, jujubas e balinhas são atirados ao povo. Despojados de dignidade e tal qual porcos esfomeados, todos se atiram na lama para chafurdar e catar guloseimas de acúcar. No palanque todos sorriem, acenam e se comprazem com a cena.

Escutam-se tiros e balas traçantes rasgam o céu como se fossem fogos da noite de 31 de dezembro. Outra fila de figurantes do povo tomba inerte e um cortejo fúnebre interminável, seguido de carpideiras aos poucos se afasta da cena principal.

O restante da multidão emocionada aplaude com entusiasmo.

Mascarados adentram a cena, se infiltram entre os figurantes e os assaltam. Um figurante se insurge e grita pela polícia. Esta, com truculência invade a cena pelo lado oposto, cerca o insurgente e o retira da multidão.

Ato contínuo, entra em cena, pela direita, um imenso bloco opulento, arruaceiro, espalhafatoso e indisciplinado chamado "Oposição". Ao mesmo tempo pela esquerda, saltitantes como gazelas numa coreografia perfeita, entram lindas ninfetas trajando leves túnicas de seda veremlha translúcida e esvoaçante. Cada uma porta um presente perfumado e bem embrulhado. Dentro das caixas tudo que se que se possa oferecer a gente vaidosa, pobre de espírito e desprovida de princípios morais.

Os grupos se encontram e o som da orquestra abafa a constrangedora balbúrdia que se segue.

O povo delira e o bloco "Oposição" de longe aplaude. Em júbilo, todos se unem e juntos carregam vilão e conselheiros como verdadeiros heróis num desfile triunfal.

Todos se afastam do cenário principal aos gritos de “queremos três”.

Fim.

Mais uma vez, o ensaio que todos os dias se repete com ligeiras adaptações, foi perfeito.

O povo só não percebeu até hoje que tudo é real. Os corpos inertes lá permanecem, os mortos são mortos, as maravilhas nunca acontecem e acima de tudo, não há futuro nem dignidade em viver assim.

Essa é a ópera Brasil. Uma tragédia diária, total e real.

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