12/04/08 – Dengue: quem paga a conta?
Brasil, Defesa Civil, Desgoverno, Opinião, Politicas Públicas, Saúde Pública
A crise da dengue mais cedo ou mais tarde se abateria sobre nós. Vinha sendo anunciada por médicos e especialistas há mais de dois anos.
Mas o assunto sempre foi tratado de forma negligente em todas as esferas administrativas.
Como é de praxe nas atuais políticas públicas, os temas só se tornam relevantes quando uma crise eclode. Atuar de forma preventiva é um trabalho que não gera a famigerada visibilidade, muito menos votos.
Essa tem sido a regra.
Além disso, é muito mais fácil e eficiente gastar recursos para comprar votos distribuindo geladeiras subvencionadas, cestas básicas e outros programas de fidelidade ou escravização do eleitor do que implantar políticas públicas honestas que visem o real bem estar social e desenvolvimento sustentável do país.
Se as prioridades no planejamento são invertidas e pessoas morrem ou o país sofre um prejuízo, pouco se pode fazer contra aqueles que deveriam administrar o país de forma responsável e eficiente.
A crise da dengue é um exemplo típico.
Todas as esferas governamentais foram negligentes na prevenção. O máximo que fizeram foi contratar campanhas publicitárias inócuas. Sabe-se lá em que condições.
Quando a crise estava se instalando prefeito, governador e ministro da Saúde negaram a epidemia e fizeram o clássico jogo de empurra da responsabilidade, como se naquele momento tal atitude pudesse minimizar a crise que se aproximava.
Não existia um plano de contingência. Ou seja, todos sabiam que a rede hospitalar estava rotineiramente sobrecarregada e próxima da falência. Nenhuma autoridade se preocupou em desenvolver um planejamento que permitisse ampliar a capacidade de leitos, mobilizar e treinar médicos e estruturar o sistema para lidar com uma situação de crise.
Os governos só começaram a agir no auge da crise, depois de algumas dezenas de óbitos e com a situação completamente descontrolada.
Às pressas e sem planejamento foram montadas tendas das Forças Armadas para tentar desafogar o sistema, que falido já não tinha condições de absorver vítimas da dengue nem de outras patologias.
Mas como não houve planejamento, faltaram médicos e não existia um cadastro para convocação de profissionais em caráter emergencial. Outros estados da Federação enviaram médicos que geraram um custo adicional de passagem e hospedagem.
O Governador Sergio Cabral chegou a espalhar em tom de ameaça que se médicos não se apresentassem voluntariamente, traria médicos de Cuba. Seria apenas mais um ato improvisado e estapafúrdio, carente até de bom senso.
Além disso, a cooperativa pela qual médicos prestam serviço à prefeitura não vinha sendo paga.
Essa é uma cronologia resumida do caos que está em curso e continua matando gente.
Somente no estado do Rio de Janeiro, até hoje, as conseqüências que têm sido veiculadas nos jornais são:
- 83 óbitos por dengue confirmados e
- mais de 80.000 casos confirmados de dengue;
Entretanto o desastre vai muito além desse quadro que por si já é calamitoso. Vejamos as conseqüências não divulgadas:
1 - Existem óbitos ainda não computados pelo fato da causa mortis ainda não ter sido diagnosticada.
2 - Enfermos de outras patologias que deixaram de ser atendidos em decorrência da falência do sistema e foram a óbito. Não se sabe quantos.
3 – Prejuízos para o trabalhador decorrentes de dias de trabalho perdidos.
4 – Prejuízos no faturamento das empresas em decorrência das faltas de trabalhadores convalescentes.
5 – Propaganda negativa para o estado com reflexo direto no faturamento da indústria do turismo.
6 - Custo para o sistema de saúde decorrente do caos mal administrado.
7 – Queda na arrecadação de tributos em função do impacto nos setores produtivos.
Estimar todos esses prejuízos não é simples e ninguém tem interesse em fazê-lo.
É certo que a cifra se situe na casa centenas de milhões de Reais.
E a aqui surge a pergunta que até agora não foi feita:
Quem será responsabilizado por todo esse prejuízo?
Da forma como o país tem sido conduzido, a resposta é: “ninguém”.
Cada família que chore e enterre seus mortos, cada trabalhador e empresário que arque com seu prejuízo e assim por diante.
Talvez um ou outro cidadão mais revoltado e esclarecido, que tenha perdido um ente querido, tente responsabilizar o Estado. Com sorte a vida perdida será avaliada e transformada numa indenização pecuniária que não repara a perda e não será paga pelos responsáveis e sim pelo Estado.
As autoridades que foram criminosas, omissas e negligentes talvez nem cheguem a tomar conhecimento das ações indenizatórias e passada a crise o assunto será esquecido.
Como o povo tem memória curta e dificuldade de correlacionar fatos, a grande maioria sequer lembrará quem foram os verdadeiros responsáveis pelo caos.
Mas que fique claro, que os principais responsáveis pelo caos não foram o mosquito, as bromélias e os pratinhos de vasinhos.
No Rio de Janeiro, os verdadeiros responsáveis pelo desastre foram: o prefeito da cidade César Maia e seu secretário de saúde, o governador do estado Sérgio Cabral e seu secretário de saúde e o próprio presidente Lula juntamente com o ministro da saúde.
Na realidade a lista de responsáveis é mais extensa, pois envolve outras secretarias que deveriam ter se envolvido no planejamento e no trabalho preventivo.
A situação é mais grave pois em outros estados também foram notificados casos de dengue. E se nada for feito, nos próximos anos a tragédia se repetirá.
Com a palavra o Ministério Público.
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