14/04/08 – Dengue e H5N1
Defesa Civil, Internacional, Opinião, Saúde Pública
A epidemia de dengue vinha sendo prevista há alguns anos.
Nem por isso as autoridades tomaram qualquer providência. Como sempre apostaram pra ver no que daria.
Não houve medias preventivas, não foi elaborado um plano de contingência e quando a epidemia chegou, não existia um mínimo de coordenação entre as diversas esferas administrativas. Pelo contrário. Prefeito, governador e o ministro da saúde promoveram o deprimente debate de “a culpa é dele”.
Resultado, falência múltipla da saúde não só no setor destinado a casos de dengue, mas de todo sistema. As conseqüências foram óbitos desnecessários e um prejuízo incalculável para o país, pelo qual ninguém será responsabilizado.
Será que esse desastre serviu para alguma coisa?
Infelizmente a resposta mais provável é não!
Se tivéssemos pessoas sérias na direção do país, esse desastre deveria servir como um alerta para a necessidade de planejar, atuar preventivamente e principalmente desenvolver planos de contingências para as hipóteses mais prováveis ou que envolvam riscos elevados.
Nesse sentido vale lembrar uma das ameaças mais graves que paira no mundo. Chama-se H5N1 e é o vírus responsável pela influenza aviária. A própria Organização Mundial de Saúde teme uma pandemia.
O H5N1 foi isolado pela primeira vez em 1996 na província de Guangdong na China. Em 1997 foram notificados os primeiros casos de infecção humana.
A influenza aviária, ou “gripe aviária”, é uma doença contagiosa de animais causada por vírus que normalmente infectam apenas aves, e menos freqüentemente, suínos. Os vírus da gripe aviária são altamente espécie-específicos, mas, em raras ocasiões, cruzaram barreiras específicas para infectar pessoas. Essa é a grande ameaça.
Os contágios de pessoas para pessoas têm sido raros, mas já foram constatados. O grande temor que assombra as autoridades mundiais de saúde é exatamente a disseminação de uma cepa modificada do vírus que se propague de pessoa para pessoa. Dada a alta patogenicidade, seria o caos em escala planetária.
Em aves a forma mais patogênica se dissemina rapidamente através do bando, causando uma doença que afeta múltiplos órgãos internos, e normalmente apresenta letalidade de 100%, geralmente dentro de 48 horas.
Em humanos a letalidade é superior a 75%.
Note-se que na dengue a letalidade é inferior a 1%.
A alta patogenecidade do H5N1 requer mediadas muito rápidas e drásticas como cordões sanitários, abate de animais infectados e áreas isoladas para tratamento de vítimas humanas. Talvez até quarentena domiciliar vigiada por força policial.
Se não existir um planejamento antecipado e um plano de contingência poderemos viver uma versão contemporânea da peste que grassou pela Europa no século XIV e dizimou 1/3 de sua população.
O que estamos passando com a dengue nesse momento é um ensaio modesto do desastre que viveremos se houver uma pandemia. Fora os problemas que já foram detectados pelo total despreparo do sistema de saúde, surgirão outros como escassez mundial de drogas, dificuldade de executar sepultamentos em massa que terão que respeitar rígidos controles sanitários, entre outros aspectos.
Somente um planejamento antecipado tem condições de identificar as vulnerabilidades do sistema e propor soluções para evitar que o caos total se instale.
Se não existir um plano de contingência muito bem elaborado e a julgar pela capacidade de resposta desse sistema acéfalo, viveremos o verdadeiro inferno.
Fica o alerta, não só para a ameaça do H5N1, mas para todas as hipóteses que venham a solicitar o sistema de saúde além da capacidade de rotina.
Bruno Engert Rizzo é engenheiro da Defesa Civil e foi diretor do Centro de Estudos e Pesquisa de Desastres.
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