21/04/08 – Um crime abala, o genocídio não.
Brasil, Desgoverno, Opinião, Política
A morte de Isabella, uma menina de 6 anos é chocante, não resta dúvida.
Para família e amigos, a perda de um membro do círculo de convívio mais íntimo deixa um vazio, que muitas vezes nem o tempo é capaz de preencher.
Que fique claro aqui que não temos o objetivo de menosprezar o sofrimento alheio. Pelo contrário, hipotecamos solidariedade aos familiares e amigos e desejamos que consigam superar a perda trágica.
Por enquanto as circunstâncias da morte não estão esclarecidas. Mas por ser um acontecimento trágico que mexe com os sentimentos de todos, ganhou status de notícia de relevância nacional que vem enchendo páginas de jornais há dias com direito a manchetes de capa, repetidas vezes.
Por certo o retrato da tragédia pendurado em todas as bancas e diariamente invadindo domicílios pela televisão é desconfortável para aqueles que sentem a perda da Isabella. Mas a mídia não tem essa sensibilidade e o que lhe importa, é explorar o fato até que o filão se esgote ou outro mais rentável seja alçado ao seu lugar.
Por outro lado, a dengue tem matado quotidianamente crianças e adultos, o MST tem praticado terrorismo e a violência nos centros urbanos ceifa mais vidas que uma guerra de médio porte. Isso para não mencionar a extensa lista de mazelas do país que de uma forma ou de outra, diariamente expõem pessoas ao risco ou chegam mesmo a matar. É o caso da infra-estrutura viária, que abandonada e sucateada é responsável por milhares de óbitos por ano.
Mas esse genocídio continuado não merece destaque. As vítimas e suas famílias se perdem numa multidão anônima que transforma dor e o sofrimento em mera estatística. É notícia que não vende.
Mais trágico ainda é que no caso da Isabella, polícia e mídia desde o primeiro dia, antes do início das investigações, identificaram e julgaram os culpados de forma açodada e irresponsável. Ainda que posteriormente as suspeitas iniciais se confirmem, não é essa a postura que se espera da mídia, muito menos do Estado. É como se a tragédia daquela família tivesse virado uma novela e o show não pudesse parar.
No caso do genocídio continuado, os números são chocantes e a tragédia é incomensurável. Mas nem polícia, nem mídia nem qualquer autoridade, sequer mencionam o fato de identificar os verdadeiros responsáveis. Na realidade parece que a responsabilidade recai sobre um ente etéreo chamado “destino” ou uma divindade qualquer que não está no plano material.
Assim não cabe questionar quem são os culpados, muito menos abrir inquéritos para responsabilizá-los.
As verdadeiras mazelas do país que matam gente no atacado, têm sido tratadas com desfaçatez tanto pelas autoridades, como pela mídia e pelo próprio povo.
O que mais impressiona nisso tudo, é que essa parece ser uma receita de sucesso universal. É conveniente aos verdadeiros criminosos, cômodo e barato para a mídia e bem aceito pelo povo.
Mais vale explorar pequenas tragédias de âmbito familiar, transformando-as em tragédias nacionais, do que fazer jornalismo responsável, realmente independente e informativo para dar a cada problema o destaque proporcional ao que representa para o país e para a sociedade.
Essa receita barata sob todos os aspectos, não compromete interesses e garante a sobrevivência sem esforço.
Em breve essa tragédia será esquecida, outra virá em seu lugar e talvez, de vez em quando, far-se-á menção a ela quando outra semelhante ocorrer.
O Brasil está atolado em crises. Vivemos uma tragédia nacional, que transformou a morte quotidiana coletiva em algo banal.
As mortes por negligência ou omissão do Estado são muito mais graves que um crime isolado, não só pelos números envolvidos, mas também pela questão moral.
Os jornais não publicam sequer a simples estatística dos mortos. Também não lhes interessa a tragédia de cada uma dessas famílias. Mas o pior é que sequer fazem menção em apontar, acuar ou constranger os verdadeiros responsáveis.
Quantos morrem por dia no país por dengue, bala perdida, violência, acidentes em estradas, saúde e saneamento negados e tantas outras causas diretamente ligadas à omissão ou negligência do Estado?
Os números são imorais, mas como mencionado, é conveniente que não sejam pesquisados nem publicados diariamente. Também não convém apontar responsáveis. Melhor deixar tudo como está, pois todos menos a sociedade, lucram.
Nos jornais e na mídia abunda espaço para esse jornalismo mediocre que explora sentimentos alheios da forma mais vil e barata. Também há espaço para as piadas do presidente ou para suas jocosas e grotescas demonstrações de ignorância. O mesmo se pode dizer em relação a seus assessores e de governantes de forma genérica.
Mas falta espaço para mostrar de forma transparente, sistemática e numa linguagem popular, que estamos atolados num caos pelo qual existem responsáveis. Esses responsáveis têm nomes, ocupam cargos públicos e deveriam responder por seus atos, por negligência ou por omissão.
Enquanto o povo aceitar tudo isso, não haverá futuro digno e continuaremos a compilar estatísticas que transformam perdas irreparáveis em números frios que não distinguem vida de morte a não ser por definições biológicas, pela grafia e pela coluna que ocupam nas estatísticas.
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