03/05/08 – ONU descobre crise mundial de alimento.
Alimento, Internacional, Opinião, Organização das Nações Unidas, Política
A nau navegava há anos como um navio fantasma. Sem carta, sem bússola e sem rumo era levada para onde vento soprasse. Numa manhã como qualquer outra, a rotina foi quebrada pelos gritos do vigia da gávea: “terra à vista”. A nau decadente, com velas esfarrapadas e casco cheio de cracas esbarrou num continente desconhecido.
O nome dessa nau poderia ser ONU, pois foi exatamente assim que a Organização das Nações Unidas – ONU, do dia para noite, "descobriu" a crise mundial de alimentos.
Chega a ser ridículo querer convencer o mundo que uma organização desse porte, contratante dos cérebros mais caros do mundo para consultores, não soubesse aquilo que até nas escolas é debatido por adolescentes desde Maltus.
Uma crise mundial de alimento não estoura do dia para noite como um incêndio que irrompe no campo, pegando todos de surpresa.
Na realidade a própria Organização das Nações Unidas sabe que existe uma carência crônica de alimento no mundo e que a subnutrição já em 1996 estava presente em 125 países, inclusive no Brasil onde o déficit médio segundo a própria ONU era de 250 kcal/pessoa/dia. (Está lá no banco de dados da ONU!)
Enquanto o problema estava restrito a países pobres e mesmo economias emergentes, a escassez de alimento era encarada como um destino dos pobres.
Pessoas morriam e continuam morrendo diariamente de subnutrição e inanição no mundo inteiro. Isso nunca foi um problema de consciência daqueles que dirigem a ONU.
Os programas de assistência nunca passaram de campanhas publicitárias para criar uma imagem humanitária que disfarce a verdadeira razão de ser da ONU, onde as decisões importantes sobre o destino do mundo batem às portas de um Conselho de Segurança.
Tanto assim, que o orçamento da ONU não prevê verba para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento; Programa Mundial de Alimentos; Fundo das Nações Unidas para Crianças, entre outros.
Todos esses programas são custeados com doações como o conhecido “Criança Esperança”, feito em parceria da UNESCO com a Rede Globo.
Enquanto flagelados morriam de fome na Ásia, África e América do Sul, o problema da fome não entrava em pauta a não ser em campanhas publicitárias onde a logomarca da ONU ilustra fotos de miseráveis remelentos e maltrapilhos se regalando a frente de um prato de sopa.
Agora que ocorreu uma alta de preços nos países ricos a luz vermelha acendeu, se fala de segurança alimentar e escassez mundial de alimentos.
Mas nem assim haverá uma solução razoável, principalmente pelo fato da população mundial que hoje está em torno de 6,6 bilhões de indivíduos, ainda tender a crescer e só estabilizar por volta de 2050.
O mundo vive realmente uma crise de alimentos. Se não houver uma nova ordem, a crise só tende a se agravar por diversos motivos e a fome será um dos maiores desastres da humanidade.
Em paralelo a escassez de alimentos vivemos uma crise mundial de energia que tem gerado uma alta de preços de petróleo, gás e carvão. Esses três recursos juntos respondem por 86% da matriz de energia primária consumida no planeta.
A alta de hidrocarbonetos criou um mercado concorrente ao dos alimentos em geral.
Terras antes destinadas à agropecuária com a finalidade de produzir alimentos passaram a produzir insumos para biocombustíveis. Se já havia escassez de alimentos, agora só foi ampliada.
Outro óbice de âmbito global é a inexistência de reservas de áreas agricultáveis. No curto prazo, a expansão de áreas só é possível com a derrubada de florestas, que não é solução por gerar efeitos colaterais inaceitáveis. Nesse aspecto, o Brasil é uma das poucas exceções, pois ainda temos reservas.
Como se não bastasse à agricultura intensiva, que responde pelo maior percentual da produção mundial de alimentos, demanda água, energia, fertilizantes e agrotóxicos em grandes quantidades.
A água é um recurso cada vez mais caro e escasso no planeta. Energia não sobra, pelo contrário. E fertilizantes e agrotóxicos são fabricados a partir do gás e do petróleo.
Para tornar essas barreiras mais intransponíveis ainda, os países ricos subsidiam a atividade agropecuária gerando concorrência predatória e inviabilizando a agricultura artesanal em países pobres.
Por último existe um vício nos preços de commodities que afeta principalmente países pobres.
Esse vício gera uma gigantesca distorção de preços entre valor agregado pelo trabalho na agropecuária e valor agregado pelo trabalho na indústria de bens de consumo e de capital.
Enquanto uma tonelada de soja é vendida por R$ 730,00, um eletroeletrônico como uma televisão de plasma 50” custa R$ 5.000,00. A realidade é mais cruel ainda quando se considera a agricultura não mecanizável, onde a produção de alimento é diretamente proporcional a tempo de trabalho do homem.
Como se pode perceber, estamos diante de um sistema de equações que não converge para uma solução.
Todo esse emaranhado de relações complexas é parte de um mecanismo pelo qual países ricos dominam países pobres. Entretanto este modelo está se esgotando e precisamos de uma nova ordem mundial.
Se não houver uma mudança drástica nas relações entre países ricos e pobres e um esforço global para solucionar deficiências nas áreas de energia, água e alimentos, o futuro da humanidade é sombrio.
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