04/05/08 – Será a culpa só do Lula?
Atuação de parlamentares, Brasil, Desgoverno, Opinião, Politicas Públicas, Política
O episódio da manifestação do General Heleno quanto à questão do índio, trouxe à tona uma questão interessante.
Há décadas o povo e principalmente a classe média vêm se afastando do processo político do país.
Eleição se tornou sinônimo de algo enfadonho com gente despreparada e desprovida de moral ocupando horário eleitoral gratuito.
As classes mais esclarecidas adotaram uma postura egoísta e um discurso cômodo.
O cidadão se contentou com dizer a si mesmo que “odeio políticos e política é uma nojeira só. Quero distância”. Com isso a grande maioria dos brasileiros de classes média e alta simplesmente se afastou do processo da verdadeira democracia no país.
Por outro lado, as classes mais pobres que representam grande parte da população brasileira, têm dificuldade de formar opinião própria, avaliar pessoas e propostas e vêem nas eleições uma oportunidade de pequenas e míseras conquistas.
Brasil para muitos desses indivíduos, é o time verde amarelo. Não têm noção de Estado, soberania, defesa, desenvolvimento, política externa e outros conceitos fundamentais para desenvolver e perpetuar uma nação, defender seu povo, gerar desenvolvimento e trazer prosperidade.
Esses indivíduos não se alinham nem se aglutinam em torno de ideais, partidos, propostas de governo e ou mesmo projetos para o país. O que faz a amálgama dessa massa popular são esmolas ou promessas de lideranças locais.
Mas o resultado é que a massa menos esclarecida de fato se une em torno de suas lideranças. Ainda que o objetivo dessa população tenha forte viés oportunista e que esses líderes na maioria das vezes sejam despreparados sob todos os aspectos ou até envolvidos com o crime organizado, existem lideranças e a relação destas com os liderados é muito próxima.
As classes mais esclarecidas, por julgarem que política é algo imundo e desmerecedor do precioso tempo disponível, acabam não se aglutinando em torno de suas lideranças.
Na verdade, o processo de afastamento das classes média e alta da democracia é tão grande, que poucas pessoas de bem, com bagagem moral e capacidade, se dispõem a entrar para a política. Quando um cidadão de bem que tem algo a oferecer ao país rompe todas as barreiras e pensa em ingressar na política, família e amigos são os primeiros a desencorajá-lo.
Depois, o fato das classes média e alta não se unirem em torno de ideais, leva a uma conseqüência nefasta.
Quando chegam as eleições, os candidatos ou são medíocres lideranças locais com real representatividade perante as comunidades que dirigem e grande probabilidade de se elegerem, ou são ilustres desconhecidos ou aventureiros com poucas chances de se elegerem.
Aí vem a escolha difícil para as classes mais esclarecidas. Nenhum dos candidatos que se apresenta tem representatividade ou qualquer compromisso com esses eleitores que nem conhecem.
Sobra a escolha por eliminação dos piores ou por uma indicação de amigo do amigo, ou ainda pela rápida leitura de currículos.
Mas como o processo está viciado de longa data, na realidade praticamente todos os candidatos que se apresentam e têm alguma chance de vencer eleições, são medíocres.
Com isso restam quatro alternativas para as classes média e alta. Abstenção, voto nulo ou branco ou ainda a desastrosa escolha entre o ruim, o péssimo ou o pior.
O resultado é este que vivemos. Há décadas o país vem sendo tomado por lideranças medíocres que, como uma doença, infectaram o Brasil e o estão exaurindo.
Nesse cenário, surge o general Heleno. Um militar e profissional de primeira linha, além de líder dentro das Forças Armadas. Sem dúvida um patriota e disposto a sacrifícios pelo país, tal como está no juramento militar.
Como o país vive um caos e afunda em corrupção e mediocridade, o general Heleno foi alçado à qualidade de herói e salvador da pátria. As classes média e alta, pela primeira vez se identificaram com um líder e já se fala em Heleno para presidente.
Vale notar, que essa identidade não se deu com um programa de governo, nem com qualquer ideologia política e sim com um fato.
O general Heleno criticou a política indigenista conduzida pelo atual governo. Esse é o fato.
Sabemos que no subconsciente do brasileiro existem algumas associações. Um militar de caráter, capaz, culto e com a coragem do general Heleno representa tudo que Lula e sua turma não são.
Além disso, é um excelente militar. Primeiro colocado em tudo que fez na vida. Inquestionável até, que seja infinitamente mais preparado que Lula, tenha muito mais capacidade e pulso para governar e seja mais fiel a Constituição e ao Estado brasileiro. Tudo isso já demonstrou.
Mas aí está o grande equivoco das classes média e alta.
O Brasil não precisa de apenas um político decente. O país precisa depurar os quadros políticos. Na atual conjuntura isso representa trocar praticamente 100% dessa escória que está no poder, por gente decente em todas as esferas.
Estamos falando de toda máquina que representa o Estado brasileiro. São vereadores, deputados estaduais, deputados federais, senadores, prefeitos governadores e de preferência o próprio presidente da República.
Essa depuração não se dará pela vontade de um presidente. Além disso, um presidente não tem força para governar o país sozinho. Precisa de apoio do Congresso, de governadores e prefeitos.
Políticas públicas fundamentais só podem ser implantadas com cooperação entre municípios, estados e União.
Precisamos restabelecer a moralidade e voltar àquela situação em que o desvio de conduta é a exceção e não a regra.
Enquanto o cidadão de bem não se conscientizar que um líder não caíra do céu por obra divina para consertar o país, o caos se perpetuará e aprofundará raízes.
Essa mediocridade na qual o Brasil se afunda é uma doença que só tende a matar o país e o povo. Há que haver uma reação, que vai muito além do ato de votar e da escolha do presidente do país. Se o Congresso não estivesse tão deteriorado, Lula não teria chance de declarar "eu não sabia". Teria sido afastado do governo e talvez até estivesse sendo julgado com chances de ser preso.
Ironicamente as classes média e alta têm imensa capacidade de percepção e indignação. Mas nada disso se transformou em liderança e liderados amalgamados em torno de ideais.
As classes mais conformadas com o destino, com menos visão de futuro e menos senso de responsabilidade social e nacional, se organizaram em torno de sindicatos, movimentos diversos, lideranças comunitárias e associações. Elegeram seus representantes que hoje desgovernam o país.
Por certo existe um gigantesco contingente de pessoas íntegras e altamente capacitadas nas classes média e alta. Mas é preciso que se disponham a ingressar na política e principalmente, que todos se engajem mais no processo da verdadeira democracia para que esses abnegados tenham reais chances de ganhar eleições.
As classes média e alta se iludem quando entendem que podem se abster do processo da democracia, acreditando que o regime se autodepure. A democracia é um regime de representação e atualmente, se estamos sendo representado por ladrões, permitimos que acontesse. E aqui não nos referimos à eleição do presidente e sim a todo um processo de décadas. Lula é fruto de uma decadência que dominou os quadros políticos e não um apenas fenômeno de popularidade.
Não se elegeu sozinho mas com o apoio de lideranças que por omissão, permitimos que fossem eleitas e aos poucos tomassem conta da máquina.
Também é uma grande ilusão supor que a situação venha a mudar na sucessão em 2010 se a democracia não for encarada com a seriedade que o momento demanda. Serra, Lula, Alquimim e estes que hoje cogitam disputar eleições, são todos aliados ou inimigos conjunturais e pertencem a mesma escola.
O processo só reverterá com uma depuração na base política do país, com novas lideranças, de outras escolas políticas.
Política é algo nobre e só deveria ser exercida por pessoas de bem, capazes, despojadas e com estofo moral. Por negligência do povo, se tornou uma doença maligna e abjeta que está corroendo as entranhas do Brasil.
O Brasil precisa de VOCÊ! Levanta do breço explêndido!
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