22/05/08 – Angra III vale o investimento e o risco?
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1 - Breve histórico.
A Usina Termonuclear Angra III talvez seja o exemplo mais representativo do desgoverno e da inexistência de políticas públicas consistentes que transcendam medíocres políticas de governo.
Em 1986, quando o Brasil assinou o acordo para Angra II com a Alemanha, comprou também 43% dos equipamentos para Angra III.
Por diversas razões, que vão desde corrupção à pressão interna e externa, a construção de Angra II atrasou.
Em paralelo, o programa nuclear foi retardado, adiado e por fim paralisado. Todo o equipamento de Angra III foi estocado em 24 galpões na Central Nuclear em Itaguaí, na NUCLEP. São cerca de 10 mil t de equipamentos que chegaram ao Brasil a partir de 1986.
Angra III já custou aproximadamente US$ 750 milhões em equipamentos e construção de fundações.
Para evitar a deterioração do equipamento já comprado, as peças foram embaladas individualmente em uma capa de alumínio hermeticamente fechada por costura eletrônica. Dentro da embalagem, foram colocados anti-umectantes.
A cada dois anos, as embalagens são abertas, os equipamentos são inspecionados e reembalados. Toda manutenção tem um custo médio de US$ 20 milhões por ano. Somente essa manutenção já nos custou US$ 500 milhões. Quase o valor do próprio equipamento!
Além disso, foi necessário proteger a ferragem da parte já concretada porém inacabada na base em construção em Angra dos Reis.
Angra III é parte do conturbado programa nuclear brasileiro, que desde o início e até hoje, vem sofrendo as mais variadas pressões. Só foi viabilizado a custa de trabalho obstinado de alguns brasileiros, como o vice Almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva, que o assumiram como missão de vida.
Não cabe aqui entrar em detalhes, mas para que se tenha uma idéia das dificuldades, o Brasil foi pressionado, boicotado, chantageado, embargado, teve material confiscado no porto e pagou pelo que não recebeu. Por fim, foi montada uma operação clandestina para trazer ao Brasil equipamentos comprados na Alemanha, porém embargados pelos EUA.
2 – O que existe além da questão de simplesmente gerar energia.
Angra III representa muito mais do que uma termonuclear que poderia ajudar a diversificar a matriz energética brasileira.
Tudo que está relacionado com tecnologia nuclear deveria ser avaliado com uma visão mais estratégica.
Não se pode reduzir a questão a uma discussão míope que usinas termonucleares representam um risco e que há outras opções para geração de energia.
A questão fundamental é que domínio da tecnologia nuclear envolve o domínio de outras tecnologias.
O seleto grupo de países que já dominam essas tecnologias as guardam a sete chaves.
Não vendem, não cedem nem trocam. Pelo contrário, se possível sabotam ou atrasam pesquisa alheia, pois sabem da importância de manter o monopólio e se manter à frente.
Não se trata, portanto, de dominar apenas tecnologia nuclear para geração de calor e movimentar turbinas a vapor.
O domínio dessa tecnologia requer conhecimentos avançados na área de resistência de materiais e processos industriais que são a base para desenvolver uma indústria de tecnologia de ponta que abrange desde a área aeroespacial, até supercomputadores e medicina avançada.
Além disso, quem não domina a fissão nuclear, jamais dominará a fusão nuclear que poderia ser a grande solução para a crise mundial de energia.
Os países que não desenvolverem conhecimento nessas áreas, se tornarão escravos incondicionais daqueles que dominam essas tecnologias e venderão caro seus produtos e serviços ou simplesmente se recusarão a vendê-los.
Recentemente tivemos um exemplo bastante significativo do que representa não dominar determinadas tecnologias. Há alguns meses o ministro da Defesa Nelson Jobim tentou comprar aviões para reaparelhar a Força Aérea. Foi à Rússia e à França, mas nenhum dos dois países se mostrou interessado em vender caças e o Brasil continua mais necessitado do que nunca de aviões.
3 – O desastre de Chernobyl foi único e não é referência.
A tecnologia nuclear é um conhecimento relativamente novo. Ganhou um grande impulso após a Segunda Guerra em função de pesquisas desenvolvidas com fins militares.
Não resta dúvida, que mesmo sua utilização pacífica envolve riscos. Contudo não é um risco inaceitável como nos querem fazer crer algumas organizações que muitas vezes mantém interesses obscuros por trás da bandeira ambientalista.
O desastre da usina termonuclear de Chernobyl ocorrido em 26/04/1986 é inquestionavelmente o mais grave de toda história do uso pacífico de energia nuclear. Muitos ambientalistas o utilizam como referência para classificar a tecnologia nuclear como um risco inaceitável. Isso é um equivoco ou má fé.
O reator de Chernobyl (tipo RBMK1000) difere dos reatores construídos no Brasil (PWR – Pressurized Water Reactor). Além disso, em Chernobyl, o sistema de segurança tinha uma concepção equivocada. Num teste do sistema de refrigeração houve uma falha humana na operação e todos os sistemas de segurança falharam. Em conseqüência o reator superaqueceu e explodiu lançando na atmosfera partículas radioativos a mais de 1.000 m de altura.
Importante lembrar que a explosão que se dá no reator não é uma explosão termonuclear, mas sim uma explosão convencional decorrente de excessiva pressão de vapor.
A pluma radioativa se dispersou sobre a Europa e Ásia chegando a afetar 26 países. O desastre demandou uma gigantesca operação de evacuação de mais de 180 mil pessoas e até hoje existem zonas de interdição permanente. (Para detalhes sobre o desastre leia pg. 95 a 104 em Defesa Civil para o Século XXI - Bruno Engert Rizzo)
Apesar da gravidade do desastre que ainda poderia ter sido pior, não se pode colocar Chernobyl como referência de risco para usinas termonuclear. Se assim o fosse não restaria dúvida quanto fechar todas as termonucleares e banir a tecnologia em caráter definitivo.
4 – A Escala Internacional de Eventos Nucleares - INES
A Escala Internacional de Eventos Nucleares - INES foi criada pela Agência Internacional de Energia Atômica para permitir a comunicação inequívoca com os meios de comunicação e a população em caso de acidentes nucleares.

5 - Riscos associados à tecnologia nuclear.
Atualmente, há no mundo 441 reatores nucleares em operação. Ao todo, 31 países têm termonucleares e 31 novas unidades estão em construção em 13 países.
Nos Estados Unidos, 50 reatores nucleares obtiveram licença de extensão de sua vida útil por mais 20 anos, e 20 novos projetos se encontram em fase de análise pelo órgão regulador.
O modelo de usinas com Reatores de Água Pressurizada - PWR existe há 50 anos e há experiência acumulada em 210 plantas. Até hoje (2008), em usinas com esse modelo de reator, houve somente um acidente grave ( nível 4 na Escala Internacional de Eventos Nucleares) na usina de Three Mile Island – EUA em 1979. Não houve vítimas.
Tecnicamente não existe o risco zero. Existem probabilidades de riscos que se situam numa escala que varia desde desprezível a inaceitável.
Quando o risco é inaceitável é preciso implementar medidas para torna-lo administrável. No caso de uma planta industrial isso é feito com instalação de dispositivos de segurança e medidas de resposta e socorro.
Os dispositivos de segurança visam evitar que o desastre venha a ocorrer. As medidas de resposta e socorro visam minimizar as conseqüências de um eventual desastre.
As conseqüências de um acidente nuclear dependem:
- da quantidade de material radioativo lançado no meio ambiente;
- da natureza dos elementos radioativos liberados;
- das condições meteorológicas quando a nuvem radioativa se forma;
- da estação do ano (do estado da vegetação);
- das medidas de prevenção e de proteção postas em prática;
- da natureza da ocupação das áreas atingidas por partículas radioativas.
No estagio atual de conhecimento a tecnologia nuclear para geração de energia apresenta dois aspectos de solução difícil, que na realidade geram a grande polêmica em torno do risco e benefício de operar usinas termonucleares.
A fissão ou “combustão” do urânio U235 gera calor que é utilizado para gerar vapor de água que por sua vez move turbinas acopladas a geradores. Com isso transforma-se calor em energia mecânica que é convertida em energia elétrica.
Mas a fissão transforma o U235 em estrôncio-90, césio-137 e outros isótopos de urânio. Esses subprodutos são conhecidos como rejeito e se mantém radioativos por um longo período.
Por ser altamente contaminante e não existir ainda um tratamento que o torne inerte, o rejeito tem sido embalado em vasos blindados ou “sarcófagos” que são enterrados em minas desativadas ou estocados em desertos e galpões.
Apesar da Alemanha estar desenvolvendo processos que reduzem a meia vida do rejeito, esse tratamento não torna o material inerte de imediato. A solução continua sendo a estocagem.
Esse é um dos grandes problemas.
O segundo aspecto é o risco inerente ao uso de material radioativo.
Em seres vivos, dependendo da dosagem, a radiação gera queimaduras, destrói células e pode causar doenças congênitas, câncer e alterações genéticas.
Além disso, a contaminação por material radioativo afeta toda cadeia alimentar desde a base até o topo.
Por esse motivo, qualquer acidente envolvendo vazamento de material radioativo para o ambiente externo é uma ocorrência grave e toda operação de resposta, socorro e recuperação é extremamente onerosa. A descontaminação pode durar décadas ou criar zonas de interdição permanentes, dependendo das características do desastre.
6 – O caso específico de Angra I, II e III.
Os reatores das usinas de Angra I, II são do modelo Pressurized Water Reaktor – PWR.
Conforme já mencionado, há apenas um caso de um acidente nível 4 na Escala INES, sem vítimas.
Ao longo de toda vida operacional, as usinas de Angra I e II registraram 17 eventos não-usuais (ENU). Nenhum deles teve classificação de nível superior a 1 na Escala INES.
O risco de um acidente da magnitude daquela ocorrido em Chernobyl é muito baixo.
Além do projeto dos reatores de Angra serem diferentes, o sistema tem dispositivos de segurança redundantes que tornam o risco de operação das termonucleares aceitável.
Contudo as usinas não são a prova de defeitos e acidentes.
Um dos aspectos que atualmente é criticável na política de gestão das termonucleares brasileiras é o plano de resposta, que como mencionado anteriormente é o conjunto de medidas que visa minimizar as conseqüências de um eventual desastre.
A Planta Termonuclear de Angra I e II, assim como a cidade de Angra dos Reis têm um Plano de Emergência.
Contudo, esse plano está sub-dimensionado e há três aspectos fundamentais que precisam ser revistos.
1 - Em 1995, o raio de exclusão em torno das usinas foi reduzido de 15 para 5 quilômetros. Essa redução é altamente questionável, pois parte do princípio que as termonucleares de Angra são a prova de acidentes 6 e 7. Essa abordagem é inaceitável, pois nenhuma usina do mundo adota tal hipótese.
2 - A cidade de Angra dos Reis e demais áreas estão favelizados. Sua população fixa é de 119 mil habitantes (referência censo demográfico 2000) boa parte habitando em favelas.
Além disso, Angra é uma cidade turística, com grande população flutuante, principalmente no verão. A favelização e a população flutuante são grandes obstáculos para o funcionamento do atual plano de emergência.
3 - O plano de emergência prevê a evacuação da população pela BR101. Essa rodovia está cronicamente mal conservada além de sofrer interdições periódicas por instabilidade de taludes e rochas da encosta que a margeia. Se por acaso um acidente que demande evacuação coincidir com um período de interdição da BR101, toda evacuação fracassará.
Aqui vale lembrar que 120 mil habitantes foi a população evacuada às pressas quando o reator de Chernobyl explodiu. O estudo aquele desastre que a evacuação foi caótica.
Imagine-se Angra dos Reis, uma cidade onde mansões e favelas convivem lado a lado diante de uma operação de evacuação. Muitas pessoas se negarão a abandonar as casas e as regiões favelizadas de difícil acesso não serão evacuadas. Além disso, o plano não prevê a hipótese de hordas de saqueadores, que no cenário atual representam uma realidade.
Contudo, o fato do Plano de Emergência estar sub-dimensionado não representa um argumento de peso para que não se construa Angra III.
Na verdade esse plano precisa ser revisto independente de Angra III e esta talvez seja uma oportunidade de faze-lo.
Por último existe um aspecto que deveria ser avaliado com cautela. Se o nível do mar vier a subir nas próximas décadas, o local escolhido para Angra III que tem uma vida útil projetada de 40 anos precisa ser reavaliado.
7 – Conclusões.
A energia termonuclear não é uma solução definitiva, pois consome combustível não renovável.
A Alemanha, por exemplo, está desativando termonucleares e pretende substituí-las por parques eólicos e outras formas de geração limpa no curto e médio prazos.
Porém a Alemanha já domina todos os processos industriais envolvidos na tecnologia nuclear e não tem reservas de urânio que justifiquem continuar investindo em termonucleares. Portanto não é um exemplo válido para o Brasil.
No mundo existem apenas 8 países que dominam todo ciclo de enriquecimento de urânio, sendo o Brasil um deles. As Indústrias Nucleares Brasileiras - INB, vinculadas ao MCT, estão consolidando a produção em escala comercial de urânio enriquecido em sua unidade de Resende (RJ). A Marinha do Brasil está fornecendo as ultra-centrífugas desenvolvidas no Centro Experimental de Aramar.
Além disso, o Brasil tem uma das maiores reservas de urânio do mundo.
Abandonar isso tudo seria falta de visão estratégica, principalmente diante de um cenário de crise e escassez de gás e petróleo que assombra o mundo.
A energia gerada em termonucleares é limpa, pois não lança poluentes no meio ambiente.
O Brasil precisa diversificar sua matriz energética e não pode abrir mão de dominar toda tecnologia industrial envolvida na tecnologia termonuclear.
Angra III seria a consolidação e atualização de um conhecimento que praticamente estagnou no tempo, depois de Angra II.
Até hoje Angra III já custou ao Brasil aproximadamente US$ 750 milhões em equipamentos e US$ 500 milhões em manutenção. Seriam necessários ainda US$ 4 bilhões, aproximadamente, para terminar a usina.
Os argumentos amplamente utilizados para obstar a construção de Angra III não se sustentam.
O principal que é a questão do risco está permeado de meias verdades e mitos.
Existem riscos muito mais graves para a humanidade como o próprio aquecimento global.
O segundo argumento é relativo ao custo de implantação da usina o ao custo da energia gerada.
Esses argumentos talvez sejam fatos no cenário atual. Mas considerando um cenário futuro com gás e petróleo mais caros, com toda certeza a energia nuclear será mais barata.
Portanto, Angra III vale o investimento e o risco.
Quanto ao Plano de Emergência precisa ser revisto independente de Angra III.
É inadmissível que essa decisão de construir ou não Angra III seja adiada a um custo de US$ 20 milhões por ano. Em breve, todo equipamento, ainda que bem conservado, estará obsoleto. Se hoje existe dúvida quanto ao benefício da construção de uma termonuclear, é certo que daqui a 20 anos já não seja interessante faze-lo com equipamentos e tecnologia superados.
(Continuação em 27/05/09)
Em 15/05/09 ocorreu um acidente nível 1 na escala INES durante uma operação de manutenção de equipamento do reator de Angra II.
A Eletronuclear só divulgou a ocorrência 11 dias depois.
Não há dúvida que o Brasil precisa desenvolver tecnologia na área nuclear. Mas uma condição essencial é a transparencia e agilidade no comunicado de acidentes radiotivos.
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19 de janeiro de 2009 às 12:21
Vale a pena sim, pois apesar de ser um gasto consideável, o retorno é muito superior, e quanto ao risco, existe em qualquer planta industrial, devemos nos lembrar que há milhares de industrias quimicas em áreas urbanas, e as centrais nucleares de Angra, são rigorosamente seguras.Uma das mais produtivas e seguras do mundo, além do fato de gerar energia totalmente limpa, sem poluentes, e quanto aos rejeitos, hoje já existe tecnologias capazes de empregar bem o lixo radioativo.O que falta é mais informação, para que as pessoas entendam melhor como funcionam as usinas, e percam o temor desnecessário.