30/05/08 – Rio de Janeiro, o Estado do Crime.
Corrupção, Crime organizado, Politicas Públicas, Segurança Pública
Talvez os fatos mais recentes sejam o início de uma longa explicação para a razão do Estado do Rio de Janeiro estar sufocado pelo crime.
Quem sabe, também uma esperança de novos horizontes.
Há décadas o Estado do Rio afunda num mar de lama onde polícia e bandidos têm sido flagrados em verdadeiras sociedades para o crime. A cada novo escândalo que vinha a tona, descobríamos que o crime tinha elos mais fortes com o poder.
Tudo começou com Leonel de Moura Brizola que ao assumir o Governo do Estado do Rio de Janeiro em 1982, impôs à polícia uma série de restrições para fazer operações em morros e favelas onde o Comando Vermelho estava iniciando o processo de ocupação de território e instalação de seus redutos.
As medidas permitiram que o crime em fase embrionária de articulação, montasse suas bases para se fortalecer, organizar e crescer.
Desde então, governo após governo, o crime só vem se profissionalizando, diversificando a atuação, expandido negócios e hoje é um Estado paralelo que se impõe soberano, colocando toda a população de joelhos.
A polícia já não tem poder de combater o crime que entrincheirado nas favelas tem ramificações nos poderes judiciário, legislativo e executivo. O máximo que a polícia consegue fazer atualmente é combater marginalmente a atividade de varejo e apartar tiroteios.
Primeiro por não existir vontade política de estruturar uma Política de Segurança Pública com o objetivo de combater o crime organizado, segundo pelo fato do próprio aparelho policial do Estado estar infiltrado de agentes do crime. As notícias de vazamentos de operações e policiais ou bombeiros e policiais civis envolvidos com o crime, já têm página cativa nos jornais.
Desde Leonel Brizola, os governadores atuavam numa acintosa e promíscua parceria com o crime. O jogo do bicho sempre existiu de forma ostensiva com casas de apostas espalhadas pelo estado.
Indivíduos de reputação criminosa, alguns com várias ações penais em curso sempre assessoraram políticos com livre trânsito em todos os gabinetes, inclusive dos governadores.
O dinheiro de atividades ilícitas financiou campanhas eleitorais sem qualquer constrangimento ou impedimento.
Mas os acontecimentos recentes talvez sejam um começo de mudanças.
Num ato inédito, a Procuradoria Regional da República no Rio denunciou o ex-governador Anthony Garotinho por formação de quadrilha armada.
Ele é acusado de garantir politicamente a manutenção de uma organização criminosa que tinha o delegado Álvaro Lins, então Chefe da Polícia Civil e atual deputado estadual (PMDB), como chefe operacional.
Álvaro Lins foi preso em flagrante ontem pela Polícia Federal na Operação Segurança S.A. Além dele, também foram presos Ricardo Hallak e outros envolvidos. Por enquanto, há 16 denunciados.
O esquema envolvia toda estrutura da Polícia Civil. Os delegados das delegacias especializadas eram indicados pela cúpula do esquema e cada delegado indicado tinha que contribuir com R$ 25 mil por mês para uma caixinha.
O dinheiro vinha de proteção à atividades ilícitas, principalmente da máfia dos bingos e caça níqueis.
Os delegados que se recusavam a participar do esquema, eram substituídos ou imobilizados funcionalmente na própria delegacia, transferindo-se assessores, inspetores e policiais pertencentes ao esquema para estas delegacias. Estes mantinham o esquema em funcionamento independente do delegado titular.
Os 16 envolvidos estão sendo denunciados pelos crimes de Formação de Quadrilha Armada, Lavagem de Dinheiro, Facilitação de Contrabando, Corrupção Passiva e Corrupção Ativa. A lista abaixo apresenta os denunciados e seus crimes.
Só não desconfiava que havia algo podre na polícia do Rio de Janeiro quem fosse ingênuo.
Logo no inicio do governo Garotinho, seu Coordenador de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, elaborou um relatório contundente sobre o fato da polícia estar infiltrada de maus policiais, compromissados com o crime e esquemas de corrupção, os mais variados. O relatório continha uma sinopse dos esquemas e nomes dos principais suspeitos, sugerindo uma série de medidas saneadores. Luiz Eduardo Soares foi ignorado e tentou levar as denúncias além da esfera estadual.
Garotinho optou por exonerá-lo e se aliar à chamada “banda podre” da polícia.
Álvaro Lins, apesar de não ter nascido em berço de ouro, tinha um patrimônio milionário e foi alvo de inúmeras denúncias durante mais de 5 anos. Apesar de tudo, foi mantido no cargo de Chefe de Polícia por Garotinho, por Benedita da Silva, por Rosinha Garotinho, e pelos secretários de Segurança Josias Quintal e Marcelo Itagiba.
O casal Garotinho sempre manteve em seu círculo de assessores e amigos, indivíduos de reputação duvidosa, como Francisco de Carvalho, o Chiquinho da Mangueira. Este por sua vez tinha ligações conhecidas com o traficante Francisco Paulo Testas Monteiro, o Tuchinha. Esse é um exemplo da promiscuidade do poder com o crime que sempre esteve presente no Rio de Janeiro. Talvez seja a explicação para o fato do Rio ser uma cidade a mercê de bandidos.
Até aqui está tudo nos jornais.
Mas existem outros desdobramentos e dúvidas que precisam ser esclarecidas.
Anthony Garotinho governou de 1999 a 2002. Benedita da Silva assumiu interinamente entre 2002 e 2003 e Rosinha Garotinho governou de 2003 a 2007. Nesse período foram secretários de Segurança: Josias Quintal, Marcello Itagiba e o próprio Garotinho.
O ex-governador do Rio, Anthony Garotinho está sendo denunciado como chefe de uma quadrilha profundamente envolvida com o crime.
Diretamente subordinado a ele, estava o Secretário de Estado de Segurança Pública e Coronel PM Josias Quintal.
O delegado e atual deputado estadual Álvaro Lins, preso como operador do esquema que utilizava toda estrutura da Secretaria de Segurança Pública era subordinado ao Secretário de Estado de Segurança Pública. Portanto, foram seus superiores diretos, Josias Quintal, o próprio Garotinho e Marcelo Itagiba.
Benedita da Silva governou por um ano e não mudou a estrutura que herdou.
Quando Rosinha Garotinho assumiu o governo, nomeou seu marido Anthony Garotinho, Secretário de Estado de Segurança Pública. Este não durou e em seu lugar assumiu o então subsecretário, delegado da Polícia Federal e atual deputado federal Marcelo Itagiba.
O Chefe de Polícia Álvaro Lins continuou no cargo passando a ser subordinado direto de Marcelo Itagiba.
Difícil entender, como o governador Anthony Garotinho e o chefe de polícia Álvaro Lins operavam um esquema que envolvia toda Secretaria de Estado de Segurança Pública, sem que os próprios secretários titulares das pastas de nada suspeitassem.
Josias Quintal era Coronel da PM e sua carreira teve início no governo militar. É tudo, menos ingênuo ou inocente.
O delegado da Polícia Federal e atual deputado federal, Marcelo Itagiba segundo o próprio currículo disponível na internet, era experiente e já havia ocupado cargos importantes na Polícia Federal. Foi Superintendente Regional da Polícia Federal do Estado do Rio de Janeiro; Coordenador de Inteligência do Departamento de Polícia Federal; Delegado Titular da Delegacia de Repressão a Entorpecentes; entre outros.
Difícil imaginar que um delegado federal não soubesse o que se passava no submundo da polícia a ele subordinada.
Mais difícil ainda crer que após assumir o cargo de Secretário de Estado de Segurança Pública, não percebesse os indícios da podridão que o cercava. Um delegado federal com o seu currículo que não perceba um esquema daquela envergadura, que fede a quilômetros, com policiais ostentando patrimônio e padrão de vida incompatíveis com os salários, ou é embotado e deveria estar aposentado a bem do serviço público, ou é conivente.
Outro fato difícil de compreender é a inocência pueril de Rosinha Garotinho.
Para não ser parte do esquema, Rosinha Garotinho teria que ser cega e surda, além de ser vítima da mais vil traição do marido.
Embora existam essas dúvidas, o fato é que esta é a primeira vez na história do Estado do Rio, que se chegou à cúpula de uma organização criminosa integrada pelo ex-governador e seu chefe de polícia, exatamente pelo envolvimento destes com o crime organizado.
A grande verdade é que tudo isso sempre existiu e os indícios eram muitos.
As relações altamente promíscuas entre políticos e bandidos são explícitas e todos os governos sem exceção toleraram o jogo do bicho e outras máfias. Além disso, só não vê sinais de riqueza externos incompatíveis com o funcionalismo público quem não quer.
Esse ação da Procuradoria da República é inédita e talvez essa seja uma esperança de mudança. Mostra que a impunidade já não é tão garantida e certa como o foi para todos os demais governadores, secretários e chefes de polícia no passado.
Sérgio Cabral o atual governador que se cuida. Apesar de estar fazendo grande teatro com operações policiais espalhando o terror nos morros, tal qual os demais, tem tolerado o jogo do bicho e foi brando quando se descobriu que todo um batalhão da Polícia Militar estava envolvido com o crime organizado. Além disso, os índices do crime mostram claramente que a situação está se deteriorando. ...e Sérgio Cabral também cultiva amizades estranhas...
Em breve teremos novas surpresas.
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31 de maio de 2008 às 4:05
Essa comunhão entre poder e o crime só traz malefícios para o país
Sobre a CSS estão querendo aprovar depois das eleições, interesseiros não?
31 de maio de 2008 às 12:43
Não tenha muita esperança. Os nobres deputados sócios ou cúmplices do bandidão já o soltaram. Me lembro de um boato que correu a boca pequena na polícia quando o bolinha Garotinho era secretário de segurança e o Itagiba o sub. Contavam que o Itagiba apreendeu um livro de contabilida de propina e que o garotinho estava na lista. Daí ele negociou o cargo de secretário de segurança e o garotinho voltou para casa.
10 de junho de 2008 às 12:18
No dia 08/06/08 o GLOBO divulgou um relatório da Polícia Federal baseado em contabilidade encontrada num "pen drive" do contraventor Rogério Andrade. Entre propinas e mesadas foram pagos R$ 35,4 milhões. A lista de beneficiados é grande e há peixe grande. Segundo a PF Rosinha Garotinho também recebia propina. .... e vem mais por aí.
19 de outubro de 2008 às 10:26
Boa noite. Gostaria de expor a minha indignação em relação ao fato de que policiais militares ficam afastados de suas funções públicas para servir de segurança particular para a família Garotinho mesmo que seus membros estejam "afastados" do poder estadual.
24 de outubro de 2008 às 5:14
Exellent post. I fully agreed with author. All wright