14/06/07 – Patrimônio ArtÃstico e Cultural: negligência criminosa II.
Desgoverno, Geral, Opinião
Furtos de obras de arte, obras sacras e documentos históricos têm sido cada vez mais freqüentes no Brasil.
Em 20/12/07 foram furtadas do Museu de Arte de São Paulo - MASP em São Paulo, as obras "O Lavrador de Café" (1939), de Candido Portinari e "Retrato de Suzanne Bloch", de Pablo Picasso (1904).
Apesar de seu valor, as obras não tinham seguro.
Por sorte, foram recuperadas pela polÃcia algumas semanas depois.
Na época ficou evidente, que o MASP, mesmo abrigando o maior acervo da América latina, era administrado e protegido de forma absolutamente amadora, para não dizer negligente. Seu sistema de segurança era simplório, mais vulneráveis até que sistemas domésticos.
Mas a lição de casa não foi feita e pouco mais de 5 meses depois em 12/06/08 foi à vez do museu da Estação Pinacoteca, na Região da Luz, centro de São Paulo.
A ação foi mais ousada, pois o assalto se deu em pleno horário de visitação. Os ladrões entraram no museu renderam vigilantes, desparafusaram os quadros da parede e fugiram.
Foram roubadas quatro obras:
- Casal, 1919 de Lasar Segall;
- Mulheres na janela, 1926 de Emiliano di Cavalcanti;
- O pintor e seu modelo, 1963 de Pablo Picasso;
- Minotauro, bebedor e mulheres, 1933 de Pablo Picasso.
Segundo a direção do museu, a obra mais valiosa, "Mulheres na Janela" de di Cavalcanti, vale US$ 500. Outras fontes avaliaram as obras em R$ 1 milhão.
As obras pertenciam à Fundação José e Paulina Nemirovsky e estavam cedidas ao museu em regime de comodato.
Apesar do valor e do fato de terem sido cedidas em comodato, não foi feito um seguro. Seria interessante saber quem vai indenizar a fundação. Será o diretor que foi negligente tanto na segurança como na não contratação de seguro? Ou serão os contribuintes?
Ainda que existisse um seguro, a questão é que patrimônio artÃstico e cultural não são bens de consumo. Uma vez furtados ou danificados, não há dinheiro que os reponha. O máximo que se pode fazer é adquirir obras de valor similar.
Diante disso, não resta dúvida que a única forma adequada para preservar o patrimônio são medidas de proteção eficazes, tanto no que diz respeito à seguranças, como na conservação.
Atualmente, com o avanço da eletrônica, o campo da segurança oferece as mais variadas medidas, que combinadas, tornam roubos e furtos dessa natureza difÃceis.
A realidade é que diretores de museus e curadores desses acervos deveriam ser profissionais e responsabilizáveis pela negligência com a qual tratam o patrimônio.
Infelizmente nossos governantes entendem que os cargos ligados à administração do patrimônio cultural e artÃstico brasileiro, podem ser objetos de ações entre amigos, como na realidade o fazem com todos os demais cargos da administração pública. Assim, as nomeações são polÃticas e os quesitos experiência e competência são relegados ao plano irrelevante.
Para ser diretor de um museu não basta gostar de arte. É fundamental saber administrar e isso inclui dotar o acervo de todas as medidas de proteção. Não só contra roubos e furtos, mas também contra deterioração ou outros danos.
No caso do MASP o amadorismo transcende qualquer limite e beira a negligência criminosa.
Quando em 24/03/06 ocorreu um roubo no Museu Chácara do Céu no Rio de Janeiro, deveria ter soado o alarme em todas as instituições que abrigavam obras de arte de valor e tinham segurança precária. Mas a ocorrência parece não ter gerado qualquer mudança de atitude.
O mesmo aconteceu com o MASP.
No dia 29 de outubro o MASP já havia sofrido uma tentativa de roubo e o sistema de segurança precário não foi reavaliado nem reforçado. Pouco depois houve outra tentativa que também foi ignorada.
Nem mesmo o cidadão mais simplório ficaria tão inerte diante de tantos avisos.
Mas essa tem sido a realidade brasileira. O fato de curadores e diretores de instituições como museus e fundações que abrigam acervos raros e valiosos serem amadores, tem levado a perdas irreparáveis. Toda que vez que ocorre um furto ou dano ao patrimônio artÃstico os responsáveis apenas vêm a público, se lamentam quanto à perda e assim se encerra a ocorrência, quando na realidade a administração negligente facilitou o crime.
O patrimônio cultural e artÃstico brasileiro está sendo progressivamente saqueado ou perdido, sem que se tome qualquer providência. As ocorrências vêm se tornando cada vez mais freqüentes e parece não haver um limite que leve à s autoridades responsáveis a tomarem providências.
Atualmente existem 1284 bens de grande valor artÃstico, histórico ou cultural catalogados no Instituto do Patrimônio Histórico e ArtÃstico Nacional - Iphan dados como perdidos, roubados ou furtados. O catálogo está disponÃvel no site do IPHAN em Banco de bens procurados.
Já foram alvos de saques o MASP, a Biblioteca Nacional, o Arquivo Nacional, e tantas outras instituições.
Muitas das obras furtadas foram mutiladas ou sofreram danos irreversÃveis. Outras desapareceram para sempre.
Vale lembrar que o risco não é só de roubo e furto. No caso de obras de arte e livros e documentos, existe também o risco de incêndio, deterioração por água ou umidade, ataque de fungos e pragas, entre outros.
Essa negligência é criminosa e assim deveria ser tratada. Os diretores de instituições com acervos tão valiosos não podem passar impunes quando são negligentes, pois lá estão para proteger um patrimônio que pertence à Nação e as futuras gerações não podem ser privadas de seu usufruto.
Com a continuidade dessa polÃtica negligente, as próximas gerações só conhecerão o patrimônio artÃstico e cultural brasileiro através de reproduções ou bibliografia.
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19 de junho de 2008 Ã s 2:09
O descaso para com o patrimônio cultural no paÃs é lamentável, é só ir a um museu, biblioteca, etc
é um crime contra a cultura
04 de novembro de 2008 Ã s 2:15
O descaso com nosso patrimônio cultural continua.
O novo presidente do Masp, João da Cruz Vicente de Azevedo é réu num processo em que o Ministério Público do Estado acusa a diretoria do museu por má gestão e pede o afastamento de seus integrantes. Ele é réu porque foi secretário-geral na gestão em que Julio Neves era presidente.
Fonte: Folha de São Paulo 04/11/08