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14/07/08 – Mais uma crise bate às portas do Palácio do Planalto

Em 14 de julho de 2008 às 9:25 | por Bruno Engert Rizzo | 578 leitura(s)
Brasil, Corrupção, Crime organizado, Desgoverno, Opinião, Política

A última semana foi marcada por agitação com prisão e soltura de gente graúda envolvida em falcatruas.

As prisões não duraram muito, pois o Ministro do Supremo Tribunal Gilmar Mendes tratou de conceder a liberdade a praticamente todos. O país inteiro teve a impressão que o Ministro Gilmar Mendes agiu como advogado de defesa dos presos e não como ministro do STF.

Argumentar que um banqueiro como Daniel Dantas que tentou subornar um delegado com US$ 1 milhão não oferece risco às investigações, transcende a ingenuidade.

Os acontecimentos foram conseqüências da Operação Satiagraha coordenada pela Polícia Federal que desmontou uma quadrilha supostamente chefiada pelo banqueiro Daniel Dantas do Banco Oportunity Assest Management Ltda.

Além de Daniel Dantas e executivos do banco, foram presos o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o especulador Naji Nahas.

Daniel Dantas comandava um esquema no qual explorava informações privilegiadas para ganhar dinheiro ilegalmente no mercado financeiro. O esquema era complexo e envolvia tráfico de influência para nomear diretores e conselheiros em empresas que entre outras ilegalidades repassavam informações privilegiadas.

Os principais envolvidos no esquema já tiveram a prisão decretada e foram efetivamente presos. Segue a lista dos presos.

  • Verônica Valente: irmã de Dantas a frente do Grupo Oportunity e sócia em 150 (cento e cinqüenta) empresas do grupo;
  • Carlos Rodemburgo: ex-marido de Verônica, envolvido na lavagem de dinheiro no setor agropecuário;
  • Arthur Joaquim Carvalho: cunhado de Dantas responsável pelos investimentos e pela abertura e encerramento de empresas;
  • Rodrigo Bhering de Andrade: suposto laranja do grupo;
  • Maria Amália Coutrim: suposta laranja do grupo;
  • Itamar Benigno filho, procurador de 16 empresas ligadas ao Oportunity;
  • Eduardo Penido Monteiro: sócio de empresas e membro de conselhos diretores e deliberativos ligadas ao esquema;
  • Norberto Aguiar Tomaz: suposto responsável pelo caixa 2 do grupo
  • Dório Ferman: acusado de gestão fraudulenta;
  • Danielle Ninnio: diretora jurídica do Oportunity.
  • Naji Nahas: receptador e usuário de informações privilegiadas. Também é acusado de fraudes no mercado de capitais.
  • Celso Pitta: envolvido no esquema com transações internacionais;
  • Lucio Bolonha Funaro, doleiro e elo de ligação entre as investigações do mensalão;
  • Fernando Naji Nahas: filho e funcionário da Nahas;
  • Maria do Carmo Janini: funcionária de Nahas;
  • Antonio Moreira Dias Filho: funcionário de Nahas;
  • Roberto Bastos, funcionário de Nahas;
  • Carmine Enrique: doleiro apontado como responsável pelas remessas de Celso Pitta;
  • Miguel Jurno Neto: doleiro;
  • Marco Ernst Metalon: doleiro.

O Ministério Público também pediu a prisão do ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh. Os jornais, porém, não esclareceram seu envolvimento com o esquema.

Os envolvidos serão denunciados por:

  • formação de quadrilha;
  • concessão de empréstimos vedados;
  • corrupção ativa;
  • uso indevido de informação privilegiada;
  • lavagem de dinheiro;
  • gestão fraudulenta de instituição financeira e
  • evasão de divisas.

É inquestionável que estamos diante de um fato inédito de gente influente sendo investigada e efetivamente presa. Talvez isso tenha relação com a fadiga da sociedade em relação à impunidade, conforme foi escrito no artigo anterior.

Mas a prisão desse grupo seleto, bem como a apreensão de computadores e arquivos, terá outros desdobramentos, mesmo que os criminosos não permaneçam presos por serem influentes.

A tese que temos defendido e sobre a qual temos escrito diversos artigos começa a ganhar contornos mais visíveis.

Temos escrito que o país está entregue à quadrilhas ou “famílias” que praticamente dividiram o país como se fossem feudos o esbulham na certeza da impunidade. Vivemos situação pior que aquela vivida na década de 30 nos Estados Unidos, quando gangster e "famílias" dividiam territórios para explorar atividades ilícitas.

Entre essas “famílias” que atuam aqui, tudo é negociável e elas se ajudam ou acobertam mutuamente.

Aos poucos começam a surgir elos de ligações entre todas essas “famílias”.

Segundo a Polícia Federal e matéria do OGLOBO de 10/07/08, o esquema de Daniel Dantas parece ter elos como o de Celso Pitta e do especulador Naji Nahas. Também pairam suspeitas de ligações com Grennhalg, José Dirceu, Gushiken, Magabeira Unger e Marcos Valério, articulador do mensalão.

Mas se recordarmos acontecimentos menos recentes, a produtora Gamecorp, que possui em seu quadro de sócios, Fábio Luis Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, recebeu em janeiro de 2005, investimento de R$ 5 milhões da empresa de telefonia Telemar, da qual Daniel Dantas era controlador por meio da Lexpar.

Aparentemente estamos diante de um quebra cabeça onde algumas peças ainda permanecem viradas e não foram identificadas. Mas, ao que tudo indica, em breve será possível montar um quadro que está se tornando cada vez mais visível e mostrará claramente todas as “famílias” que na certeza da impunidade, dividem e roubam o país como lhes convém.

Tudo tem acontecido com o beneplácito de um personagem que até hoje se manteve à margem dos acontecimentos e se esquivou de suas responsabilidades como se a alienação fosse uma justificativa aceitável.

Mas aos poucos o cerco está apertando e as crises que batem à sua porta, cada vez mais trazem incômodos indícios com perguntas que mais cedo ou mais tarde terão que ser respondidas.

Ainda Daniel Dantas consiga se livrar da prisão pela influência ou mesmo por corrupção, é certo que este é só o começo da crise, pois conforme as investigações avançam elos até então pouco visíveis se tornam claros e a crise novamente bate às portas do PT e do Palácio do Planalto.

Há décadas o Estado brasileiro trava nos bastidores uma guerra silenciosa entre grupos minoritários que representam a verdadeira sociedade brasileira de bem e “famílias” que esbulham a nação sem pudor e roubam um futuro digno de gerações.

Contudo, os últimos acontecimentos levam a crer que estão surgindo forças depuradores e que num futuro próximo talvez possamos ser uma verdadeira Nação com cidadãos de bem tratados com dignidade e criminosos presos.

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