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03/09/08 – Vitória do crime e falência do Estado.


Em 19/10/07 publicamos o artigo “Rio: Milícia expulsa tráfico da Favela da Metral”.

Há praticamente um ano já era previsível que o fenômeno do surgimento de milícias representava uma profissionalização do crime que resultaria numa infiltração de criminosos na estrutura  administrativa e política do Estado Brasileiro.

As previsões se materializaram e dado à incapacidade do Estado de combater essas milícias, foi criado um Estado Paralelo que nos levou a uma situação de difícil retorno.

Em menos de um ano, as milícias se expandiram, expulsaram ou eliminaram traficantes, dominaram comunidades e implantaram a versão letrada e profissionalizada do banditismo.

Recentemente a polícia prendeu o deputado Natalino José Guimarães (DEM) e seu irmão o ex-policial civil e vereador Jerônimo Guimarães Filho (PMDB) ou Jerominho, acusados de chefiarem uma milícia que atua na zona Oeste e tem o sugestivo nome de “Liga da Justiça”.

Apesar de presos, ambos continuam comandando a campanha eleitoral da cadeia e impõem às comunidades dominadas que Carmem Glória Guinâncio Guimarães (PTdoB), filha de Jerominho seja eleita vereadora. Os santinhos de propaganda são distribuídos com ameaças por milicianos armados.

Estes não são os únicos exemplos. Há também o ex-policial civil e deputado estadual Jorge Babu (PT), o vereador Josinaldo Francisco da Cruz (DEM), o Nadinho de Rio das Pedras e uma extensa lista políticos, policiais, bombeiros, militares e agentes penitenciários envolvidos com milícias e portadores de extensas folhas de crimes.

Esses políticos que agora estão sendo acusados de chefiarem milícias já vinham atuando há mais tempo e são a prova da profunda infiltração do crime organizado no Estado.

Além disso, somente no município do Rio de Janeiro, dos 16 batalhões que cobrem o município, 8 estão comprovadamente infiltrados por membros de milícias.

Somente esses fatos isolados deveriam representar um alerta para governos federal, estaduais, judiciários, legislativos e autoridades da área de segurança pública.

Apesar da gravidade da situação as autoridades competentes (?) não se sensibilizaram.

A atual situação é muito grave, pois o fato dos partidos abrirem as portas para bandidos mostra que os tentáculos do crime organizado são muito mais longos que aparentam ser. Ou seja, não se trata apenas de políticos ocasionalmente eleitos que entraram para a vida do crime, mas sim de partidos que aceitaram filiaçòes de bandidos.

Se os partidos aceitam a filiação de notórios bandidos como estes que ocupam as páginas criminais dos jornais, é porque há interesses mútuos. No fundo todos os membros de partidos que acolhem bandidos, são no mínimo coniventes com o crime organizado. Na maioria das vezes, entretanto, os elos são mais fortes que a simples conivência. Já há prefeitos e governadores apoiados por bandidos que nem sequer escondem suas ligações promíscuas. Dividem palanques com bandidos e os elogiam publicamente.

No Rio de Janeiro a situação está descontrolada. Basta lembrar que a ALERJ – Assembléia Legislativa tem 70 deputados e quase a metade está envolvida em crimes ou ilegalidades e sendo processada.

Tudo isso está nos jornais e é de conhecimento público, não demandando muita pesquisa para que se descubra nomes, crimes, áreas de atuação, ligações, faturamento e demais detalhes.

A questão é que se a atual situação já é de descontrole, o futuro é mais sombrio ainda.

O crime já se infiltrou no Estado e hoje é comandado por pessoas esclarecidas com acesso a informações privilegiadas e ligações dentro da estrutura político administrativa do país.

O fato de haver policiais civis, policiais militares, bombeiros e militares de carreira comandando e integrando milícias, torna parte do aparato policial e de segurança do Estado ineficiente, inócuo ou até inoperante.

O Estado e as instituições perderam a capacidade de se depurar o que torna praticamente impossível separar bandidos de funcionários. Pior ainda é o fato de existirem dentro das instituições elos corporativistas que facilitam a contaminação e corrupção de funcionários ou vazamento de informações privilegiadas e uso indevido do aparato de segurança pública em prol de interesses do crime organizado.

Além disso, policiais e militares que foram formados e treinados pelo Estado agora estão a serviço do crime e muitos são perítos na arte da guerra, em combate urbano e inteligência.

A inteligência que o Estado deveria estar utilizando para combater o crime organizado e por incompetência ou negligência não emprega, está sendo bem empregada pelo crime para se estruturar e imobilizar o Estado.

O crime já tem inteligência e contra-inteligência com agentes infiltrados em toda estrutura administrativa e de segurança e isso tem custado vidas de bons policiais e de civis, além de transformar operações policiais em teatros caros.

Em breve, por força de ligações corporativas dentro de instituições como bombeiros, polícia e principalmente dos partidos, virá uma unificação do crime.

Essa unificação transformará milícias numa organização mais poderosa e lesiva à sociedade que a própria máfia italiana, pois não só terá membros infiltrados no Estado, como também contará com um poderoso exército bem treinado e armado.

O crime unificado buscará alianças sólidas com outras facões criminosas como FARCs, redes internacionais de tráfico, lavagem de dinheiro, contrabando e outros ilícitos penais.

Estamos diante de um problema que não deveria ser tratado no âmbito da segurança pública, pois transcende à capacidade da polícia resolvê-lo.

O crime organizado no Rio de Janeiro e nas grandes capitais precisa ser tratado como uma questão de segurança nacional que demanda uma solução integrada, coordenando judiciários, executivos e legislativos em todas as esferas.

O legislativo tem tratado a questão do crime organizado com uma mentalidade defasada no tempo em quase 100 anos.

O judiciário tem interpretado direitos humanos e o respeito à Constituição de forma extremamente equivocada, sempre buscando filigranas que deturpam o espírito da lei, criando salvaguardas para bandidos em detrimento do bem estar e da segurança da sociedade.

O poder executivo tem tratado a questão como ocorrências policiais e nunca apresentou proposta para uma política de segurança pública.

Com isso o crime em menos de 30 anos deu dois passos importantes rumo ao fortalecimento e domínio do Estado.

Na década de 70 a convivência de presos políticos com criminosos comuns em presídios, foi o passo fundamental.

A primeira facção do crime organizado, o Comando Vermelho, nasceu no presídio da Ilha Grande, fruto dessa simbiose de bandidos com presos políticos egressos da esquerda revolucionária.

Foram precisamente ex-terroristas,  membros da esquerda revolucionária,  que ensinaram bandidos e facínoras a se organizar, a planejar suas ações e empregar e explorar melhor o potencial das armas.

Depois do Comando Vermelho surgiram outras facções do crime que copiaram seu modelo. Contudo, apesar de já apresentaram uma estrutura, essas facções eram comandadas e integradas por pessoas rudes, ignorantes e semi-analfabetas.

Além dessa limitação, disputavam áreas entre si o que as levava a se desgastarem mutuamente em confrontos. Mas essas facções evoluíram e chegaram a criar elos importantes com outras organizações criminosas como as FARCs.

O surgimento das milícias comandadas e integradas por policiais, militares e bombeiros, foi o segundo passo na profissionalização do crime. Seu poder é tamanho, que apesar do reduzido efetivo, em pouco tempo já dominaram comunidades que pertenciam à facões criminosas do modelo antigo.

O terceiro passo será o domínio total do Estado com a unificação dessas milícias e absorção ou eliminação de egressos de facões criminosas do modelo antigo.

Além disso, já está em estágio avançado a infiltração da estrutura político administrativa do Estado o que só virá a consolidar o poder dessas milícias. Eleição após eleição mais bandidos assumem cargos eletivos ou são nomeados por membros de seus partidos para integraram a estrutura administrativa.

Em breve teremos prefeitos e governadores eleitos pelo poder do crime organizado ou parceiros do crime.

O exemplo do casal Garotinho que governou o Rio de Janeiro por quase 8 anos e empossou Álvaro Lins como Chefe de Polícia foi mais um indício desprezado pelas autoridades do país.

Tudo isso indica um caminho de retorno quase impossível ou no mínimo doloroso para toda sociedade.

Atualmente a grande batalha já não é travada no âmbito do Estado com o crime organizado. Como o Estado está altamente infiltrado, a guerra foi transferida para dentro da organização administrativa do Estado e se dá em âmbito pessoal entre pessoas do bem e do mal.

Se o quadro que está se delineando vier a se consolidar, estaremos diante de uma situação pior que a da própria Colômbia e só uma intervenção militar com medidas legais duras como suspensão de direitos individuais e um regime de exceção, serão capazes de trazer paz e segurança para as grandes capitais e para o país.

O judiciário precisa acordar e legislar em prol da sociedade. O legislativo precisa ser expurgado de bandidos e o poder executivo precisa implantar uma verdadeira política de segurança  pública. Se nada for feito o futuro será sombrio.

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Uma Resposta para “03/09/08 – Vitória do crime e falência do Estado.”

  1. Aroldo Lima escreveu:


    Prezado Bruno.
    Sou leitor bastante assíduo de seus artigos. Muitos até envio para amigos. Por isso me permito uma crítica construtiva. A indicação "Leia também" poderia ser mais criteriosa.
    Saudações


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