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16/10/08 – O projeto de poder de Bush e a queda do império.

Em 16 de outubro de 2008 às 9:44 | por Bruno Engert Rizzo | 13.557 leitura(s)
Economia, Futuro, Guerra, Internacional, Opinião, Política

1 - O projeto.

A queda da União Soviética transformou os Estados Unidos da América numa superpotência hegemônica global e abriu novas perspectivas geopolíticas no cenário mundial.

Os EUA que até então disputavam áreas de influência num mundo bi-polar, se viram diante de uma situação inusitada, pois as fronteiras que limitavam suas ambições ruíram do dia para a noite como um castelo de cartas. 

Muro de Berlim – símbolo da fronteira da Guerra Fria.

Muro de Berlim, síbolo da Guerra Fria

Os limites deixaram de ser fronteiras físicas vigiadas ou defendidas e passaram a ser a opinião pública interna e interesses de países aliados.

Diante desse cenário que coincidiu com a ascensão de um presidente medíocre, os EUA aceleraram um projeto de poder que vinha sendo construído desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

O cenário era adequado, os EUA concentravam poder militar, econômico e político. Guardadas as devidas proporções, na história da humanidade, só o Império Romano em seu auge, alcançou poder semelhante ao cobiçado por Bush.

Entretanto, faltava aos EUA um argumento que lhes permitisse liberdade total de ação, principalmente para hostilizar Estados soberanos.

Nesse aspecto o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 foi "providencial", pois lhes deu a única peça que faltava no projeto de poder.

Atentado às Torres Gêmeas - 11 de setembro de 2001

Assim, livres de grilhões morais ou outros constrangimentos, após o atentado os EUA  desencadearam uma série de ações militares que pretendiam consolidar um poder hegemônico e inquestionável.

Exatamente como Hitler sonhava com o Reich de 1000 anos, Bush delirava e pretendia transformar os EUA, num verdadeiro império global, plenipotenciário e perpétuo.

A base doutrinária desse projeto de poder recebeu o nome de Doutrina Bush. (disponível em http://www.whitehouse.gov/nsc/nss.pdf)

Em resumo essa doutrina parte do pressuposto que os EUA, única superpotência global, têm o papel de proteger o mundo civilizado de terroristas e caso necessário, reserva aos EUA a prerrogativa de lançar ataques preventivos contra países ou grupos terroristas, antes que eles ameacem interesses americanos.

O julgamento quanto a quem representa uma ameaça ou que tipo de ameaça justifica um ataque preventivo, cabe exclusivamente aos Estados Unidos da América.

A partir da adoção dessa postura, Bush se colocou acima do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas - ONU, que passou a ser desprezado e até humilhado, uma vez que suas decisões já não tinham qualquer valor quando não estavam perfeitamente alinhadas com interesses dos EUA.

2 – Cronologia.

Em 7 de outubro de 2001, com base na Doutrina Bush e no argumento que o Afeganistão estaria acolhendo Osama Bin Laden e à al-Qaeda, os EUA cooptaram o Reino Unido e atacaram o Afeganistão.
Posteriormente a aliança foi reforçada pelo Canadá, tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte e de outros países.

O governo do Taliban foi derrubado e substituído por um governo simpático aos EUA. Contudo, Bin Laden não foi capturado e o Taliban continuou ativo no país, impondo aos EUA uma guerra de guerrilha que persiste até hoje (2008), tem levado as tropas americanas a um desgaste moral e sangrado os cofres dos EUA.

Em 20 de março de 2003 os EUA, com base num relatório contendo informações falsas sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque e uma suposta aliança de Sadam Hussein com à al-Qaeda, formaram e lideraram uma Coalizão de países que iniciou uma guerra contra Iraque.

Bombardeio de Bagda

A Coalizão atacou o Iraque sem a aprovação do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, até porque o tal relatório vinha sendo amplamente contestado.

Em 1 de maio o presidente Bush declarou o fim das operações militares, dissolvendo o governo do partido Ba’ath e depondo o presidente Saddam Hussein. Este foi capturado em 2004 e enforcado em dezembro de 2006.

Nenhuma das informações do relatório que embasou o ato de guerra contra o Iraque se provou verdadeira. Pelo contrário, hoje está provado que o relatório fora deliberadamente encomendado e que seu conteúdo fora forjado para justificar a aplicação da doutrina Bush.

Além disso, Bush mentiu ao Congresso Americano sobre os custos da guerra, informando que seriam da ordem de U$ 50 bilhões.

Apesar da guerra ter sido declarada como vencida por Bush, as tropas da Coalizão até hoje (25/03/2008) continuam literalmente atoladas e vêm sofrendo ataques com baixas.

Esse é um resumo cronológico do primeiro ato do projeto de poder magalômano de Bush, tão insano quanto imoral.

As conseqüências dessas duas ações vão muito além de atos de guerra e do balanço que hoje é feito em termos de vítimas, danos e prejuízos.

3 – Um balanço das conseqüências diretas.

Poucos dos objetivos anunciados foram efetivamente alcançados.

Osama Bin Laden não foi capturado. As armas de destruição em massa não foram encontradas e Sadam Hussein não tinha ligações com Osama Bin Laden.

As guerras contra o Afeganistão e contra o Iraque, pretendiam acabar com núcleos terroristas que eventualmente representassem uma ameaça a interesses dos EUA.

Tanto o Afeganistão como o Iraque se transformaram em verdadeiras incubadoras de células terroristas mais fanáticas, numerosas e motivadas do que antes da guerra. O ódio pelos países que integraram a Coalizão só aumentou e esses países são hoje alvos prioritários de grupos islâmicos radicais.

3.1 – Afeganistão.

No Afeganistão, ao contrário do que se imagina, as baixas da Coalizão têm aumentado ano após ano, o que mostra uma progressiva perda do controle da situação e o crescente poder do Taliban.

Baixas Militares dos EUA e da Coalizão no Afeganistão

(Fonte: http://icasualties.org ) 

O número de vítimas afegãs civis é incerto e as estimativas variam muito de uma fonte para a outra. Jonathan Steele do The Guardian estima que o número de vítimas fatais civis afegãs esteja entre 20,000 e 49,600.

O Afeganistão que já era um país depauperado e quebrado devido à ocupação prolongada da União Soviética e conseqüente resistência, atualmente é um país sem infra-estrutura e uma terra arrasada. Sua principal fonte de recursos é a agricultura e o cultivo de papoulas para fabricação de ópio vem aumentando.

A estimativa de danos e o custo de reconstrução do país não foram divulgados.

3.2 – Iraque.

No Iraque a situação é mais crítica pelo fato da insurgência ser mais forte.

Atentados e execuções entraram para a rotina diária. Os gráficos a seguir mostram que a situação está se deteriorando numa progressão assustadora.

O número de vítimas civis fatais identificadas com certidão de óbito é da ordem de 100 mil (março de 2008) e pode ser acompanhado diariamente no site http://www.iraqbodycount.org.

Vítimas fatais identificadas - civis iraquianos.

Entretanto, o número verdadeiro é maior e segundo alguns analistas pode ser da ordem de 1 milhão de iraquianos.

Analistas do Opinion Research Business (http://www.opinion.co.uk/Newsroom_details.aspx?NewsId=88 estimam que entre 946.000 e 1.120.000 de iraquianos tenham ido a óbito violentamente desde a invasão americana.

O número de feridos e inválidos é desconhecido, pois o pais está quebrado e sucumbe num caos que impossibilita a implantação de programas de assistência.

O Iraque está destruído. Os prejuízos não foram avaliados e o custo da reconstrução do país não é divulgado.

Além dos óbitos, outra perda irreparável foi a destruição de um dos acervos arqueológicos mais ricos do mundo. O comando da Coalizão não poupou nem protegeu o museu histórico que foi saqueado e depredado.

As estatísticas da Coalizão estão dispersas e são objeto de desinformação.

Ao todo, somente os EUA já enviaram 1,65 milhão de militares americanos que se revezaram no Iraque. Atualmente há cerca de 160 mil militares americanos no Iraque e um número reduzido dos demais países da Coalizão.

O número de óbitos na Coalizão chegou de 4312 militares em março de 2008. Destes, 4003 são americanos, 176 britânicos e os demais de outras nacionalidades. Há também óbitos de civis à serviço da Coalizão. As estatísticas de óbitos podem ser acompanhados diariamente no site http://icasualties.org

Bush declarou o fim da guerra e subliminarmente a vitória dos EUA em 1 de maio de 2003. Entretanto o número de baixas e o custo de manutenção das tropas mostram que a situação está descontrolada.(ver http://icasualties.org)

Baixas Militares dos EUA e da Coalizão no Iraque (até 26/04/08)

O número oficial de feridos é de aproximadamente 40 mil militares americanos.

O número de veteranos com diagnóstico de Síndrome de Estresse Pós-Traumático chega a 52 mil e o Departamento de Orçamento do Congresso orçou o custo da assistência médica a feridos e deficientes para 2008 em U$ 692 bilhões. Dados detalhados estão disponíveis no endereço http://www.cbo.gov/doc.cfm?index=8710&type=0

Além disso, consta que cerca de 40% dos 1,65 milhão de militares americanos que estiveram no Iraque terão que ser indenizados por deficiência física. (Essa informação é inconsistente se comparada com o número total de feridos).

O resumo de toda essa salada de números garimpados em diversas fontes e pouco consistentes, é a estimativa do custo final do projeto de poder insano de Bush.

Oficialmente o custo direto da guerra foi de U$ 505 bilhões até 25/03/08 para os cofres dos EUA e o custo diário de manutenção das tropas americanas é da ordem de U$ 500 milhões atualmente. (O contador em tempo real está disponível em http://www.nationalpriorities.org/costofwar_home)

O custo de toda Coalizão é maior, porém os dados não estão disponibilizados.

4 – Conseqüências indiretas.

Enquanto as tropas não se retirarem a sangria continuará e tudo aponta para um recrudescimento. Conforme os grupos de resistência estão se estruturando seu poder aumenta e os atentados levarão a mais baixas.

Segundo estimativas de diversas fontes, entre elas Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, o custo da guerra para os EUA será da ordem U$ 3 trilhões e outros U$ 3 trilhões para o restante do mundo se as tropas se retirassem de imediato.

A menos que ocorram mudanças radicais e imprevistas, em função do ônus da guerra, a dívida pública dos EUA que era de U$ 5,7 trilhões baterá o recorde de U$ 8,5 trilhões no fim do governo Bush.

Os EUA terão um ônus adicional a carregar por um longo tempo. Os feridos, mutilados e inválidos terão que ser tratados e muitos deles serão reformados. Isso implica em pagar pensões e tratamento vitalício. Além disso, cada militar morto gera uma pensão para a família.

Mas esse é lado ameno do pesadelo.

Os EUA criaram numa situação difícil, tanto no Afeganistão, como no Iraque.

Uma vitória definitiva como planejada inicialmente, se mostrou impossível.

Manter o Afeganistão e o Iraque ocupados tem um custo proibitivo e em mais alguns anos levará a economia americana à falência.

Os 4,5 mil militares americanos mortos e 40 mil feridos ou inválidos, foram o suficiente para tornar a guerra um pesadelo para o povo americano.

Além disso, a guerra tornou os EUA politicamente incorretos perante a opinião pública mundial o que tem conseqüências até econômicas, principalmente para multinacionais que são ícones dos Estados Unidos da América.

Mas os EUA não podem simplesmente se retirar desses dois países.

Primeiro pelo fato de uma retirada representar uma derrota humilhante para a superpotência hegemônica que ainda carrega o fardo da derrota no Vietnã, em muitos aspectos semelhante à atual situação.

Mas pior que o orgulho ferido, será o caos e o vazio político deixado para trás. O Afeganistão e o Iraque que já são incubadoras de células terroristas, mergulharão numa guerra civil total e o mais provável é que grupos insurgentes contrários aos interesses americanos tomem o poder.

O Afeganistão não tem riquezas alienáveis e provavelmente será abandonado a própria sorte tendendo a crescer no mercado de drogas como fornecedor de ópio. Tão logo os EUA se retirem o retorno do Talibã, ao poder será mera questão de tempo. O Talibã é uma vesrão islâmica do comunismo nos moldes mais retrógrados e rudimentares.

No Iraque a situação é outra. É possível que a influência do Irã, transforme o Iraque numa república Islâmica o que seria um pesadelo para os EUA.

O país tem a segunda reserva de petróleo do mundo. Essa foi na realidade uma das principais razões dos EUA terem se lançado na aventura da guerra. Desejavam assegurar o fornecimento de petróleo e impedir que Sadam Hussein adotasse o Euro para referência de preço do petróleo. Se essa medida fosse tomada, o dólar perderia força como moeda de referência na economia mundial o que teria conseqüências econômicas desastrosas para os EUA. Seria o inicio de uma crise semelhante a que está se iniciando agora com a cotação do dólar despencando frente a outras moedas.

Além disso, o Iraque tem uma dívida estimada em U$ 380 bilhões e está literalmente quebrado depois de décadas de guerra. Foram duas guerras contra os EUA e uma contra o Irã.

O petróleo existe, como também existem contratos com empresas assinados antes da guerra. Mas o chamado ouro negro está no solo e demanda investimentos para ser extraído. O caos político e a insurgência são um óbice a exploração, transporte e a comercialização do petróleo.

Não há qualquer garantia que os contratos antigos sejam honrados.

Ou seja, se o cenário geopolítico existente no oriente incomodava interesses dos EUA, agora viverão um pesadelo.

Seria ilusão imaginar que as tropas da Coalizão se retirem e que o povo eleja representantes de um regime simpático aos EUA. Pelo contrário, quem quer que assuma e consiga se manter no poder será pior do Sadam Hussein para interesses dos EUA e do Reino Unido.

5 – Conclusões.

Se George W. Bush buscava um lugar de destaque na história mundial talvez tenha conseguido.

Seu projeto de poder associado a uma administração interna medíocre, arruinaram a economia dos EUA que hoje está diante de uma crise grave.

A aventura no Iraque e no Afeganistão quebraram o equilíbrio do Oriente e o futuro é incerto, sendo provável que o cenário permaneça instável por um longo período.

Sadam Hussein foi condenado à forca e executado por ter sido considerado culpado pela morte de 148 xiitas no povoado de Dujail, em 1982.

Bush talvez não seja julgado e condenado em vida pelo genocídio causado pelo seu projeto megalômano que resultou em mais de 1 milhão de civis mortos, feridos e inválidos no Iraque e no Afeganistão. Mas com toda certeza o feito permanecerá gravado em livros, sites e bancos de dados pela eternidade.

A produção mundial de petróleo não se elevou e o preço do barril de petróleo saltou de U$ 24,00 em 2001 quando Bush assumiu seu primeiro mandato, para mais de U$ 100,00, já tendo batido o recorde de U$ 110,00 em 14/03/08.

A crise mundial do Dólar cuja cotação tem despencado frente a todas as outras moedas parece ser inevitável.

O governo Bush esta chegando ao fim e é certo que graças a ele, os EUA estão enfraquecidos.

Talvez a queda da potência hegemônica não se de uma vez como foi à queda da União Soviética.

Mas a dívida interna, os custos da guerra que serão amortizados nas próximas décadas, a crise mundial do Dólar e a crise financeira interna, são problemas que não se dissipam com a mudança do presidente.

Bush está deixando um legado difícil de administrar e ao que tudo indica só acelerou a decadência do império, que agora parece ser mera questão de tempo. A dívida interna e a crise financeira já anunciada poderão arrastar o mundo para uma crise global.

O século XIX pertenceu ao Reino Unido e o Século XX aos Estados Unidos da América. Graças a Bush, os EUA são um potência decadente e destronada.

Talvez essa seja uma oportunidade para reconstruir a economia global em bases mais sólidas e um mundo mais justo.

Esse artigo foi publicado em 25/03/08 e agora transcrito para o blog.

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