25/01/09 – Riscos e consequências da verticalização de favelas.
Brasil, Favela, Meio Ambiente, Opinião, Politicas Públicas, Política

Há pouco mais de um século, favelas eram aglomerados de barracos de taipa erguidos em áreas de difícil acesso e seus moradores eram verdadeiros miseráveis.
Os barracos eram primitivos em todos os aspectos. Em geral tinham um único cômodo onde se dormia, cozinhava e que abrigava da chuva.
Não havia água, esgoto ou energia.
Sucessivos governos toleraram e até incentivaram a criação de favelas, pois esta era uma política cômoda e barata para combater o déficit habitacional, agradar miseráveis e conquistar votos.
Alguns governos mais populistas lidaram com a questão de forma literalmente criminosa, pois chegaram a implantar políticas de fomento à expansão de favelas.
Tivemos o “kit construção” no qual a prefeitura fornecia material e o beneficiado construía ou ampliava seu barraco onde desejasse, ao arrepio total da lei e da ordem.
Também houve um sem número de políticos ligados a governos que forneceram retroescavadeiras pertencentes Estado para terraplanar áreas, preparando-as para se tornarem favelas. Alguns desses políticos ou seus herdeiros e discípulos hoje desfilam na Assembléia Legislativa e na Câmara como se fossem homens de bem.
O caos veio a fechar seu primeiro ciclo quando o governo, mais uma vez, num golpe de populismo e demagogia, resolveu levar água, energia e esgoto para favelas. Ou seja, em vez de combater a ocupação desordenada e criar programas habitacionais, o governo simplesmente legitimou o caos.
Naquele momento teve início também a mudança do perfil do morador de favela. Já não eram apenas miseráveis, mas também indivíduos remediados que por razões diversas optaram por se mudar para a favela. Era comum o governo remover comunidades para conjuntos habitacionais e os beneficiados venderem os imóveis recebidos para em seguida construir barracos em outras comunidades.
Em 1977 existiam no Rio de Janeiro aproximadamente 200 favelas. A maioria era constituída de barracos e casario de um, no máximo dois pavimentos. Atualmente são mais de 700 favelas com ocupação consolidada e aproximadamente 200 em fase de nascimento. A verticalização está presente em quase todas, havendo edificações de mais de 10 pavimentos.
E era Brizola foi um marco importante para consolidação das favelas. O crime estava em fase de organização e o Comando Vermelho acabara de nascer no presídio da Ilha Grande, fruto do casamento entre ex-guerrilheiros, terroristas e criminosos políticos ligados à esquerda revolucionária com bandidos, facínoras e criminosos comuns.
O crime organizado encontrou nas favelas o ambiente ideal para se instalar.
A geografia era propícia a uma posição defensiva e principalmente, favelas eram o ícone máximo do abandono do cidadão. A terra virgem habitada por um aglomerado de pessoas esquecidas pelo Estado a espera de alguém que ocupasse o vácuo criado pelo abandono.
Brizola não só permitiu que o crime organizado se instalasse nos morros, como também proibiu a polícia de entrar em favelas.
Assim fechou-se o segundo ciclo do caos.
A continuidade de políticas populistas e nesta altura a tolerância ou conivência das autoridades com o crime organizado levou ao descontrole definitivo.
O crime que antes utilizada a favela apenas como local de homizio e reduto para defesa, instalou negócios altamente rentáveis.
Favelas se transformaram em verdadeiros pólos de negócios ilícitos.
O porte fólio de negócios é amplo. Há processamento e venda de drogas, bailes funk, locadoras de armas para cometimento de crimes, desmanches de veículos roubados e furtados, venda de sinal pirata de TV, venda se segurança, exploração de serviços como venda de gás e construção civil.
Esse último item, trouxe mais um grave problema que foi a verticalização das favelas.
Enquanto a expansão de favelas se dava horizontalmente o problema tinha uma dimensão e seu controle era relativamente simples.
A verticalização de favelas teve início com um conceito absurdo que era a “venda da laje”.
O indivíduo construía seu barraco de alvenaria e concreto e em vez de colocar um telhado deixava apenas uma laje de cobertura que logo em seguida era vendida com o direito de construção de mais um pavimento.
Seu comprador fazia o mesmo. Assim a construção ganhava mais um pavimento e o direito de construir um próximo.
Pelo fato de não haver estrutura compatível, não raro ocorrem desabamentos no decurso desse processo de verticalização.
Com o domínio do crime organizado a verticalização ganhou uma componente nova. O fato da favela ser “terra de ninguém” e território livre de leis, levou ao surgimento de empreendedores que à margem da lei e da boa técnica erguem prédios.
Por trás da construção desses prédios há políticos influentes atuando em associação com o crime organizado.

A verticalização de favelas tem vários aspectos que envolvem alto risco não só para aqueles que habitam essas edificações mas também para toda comunidade circunvizinha.
Os riscos mais graves são:
- as construções são erguidas ao arrepio das normas de engenharia e construção civil;
- não há engenheiros responsáveis
- não existem projetos de estruturas, fundações ou instalações elétricas;
- as normas para prevenção de pânico e incêndio não são respeitadas;
- áreas de risco não são respeitadas;
- não existe infra-estrutura de esgoto tornando todo conjunto insalubre;
- quando ocorrem sinistros, os verdadeiros responsáveis e criminosos não estão ao alcance da lei. Saem ilesos para construir novos empreendimentos.
Além desses riscos existem outros fatores agravantes.
O fato da malha viária ser caótica na grande maioria das vezes torna o acesso de carros de emergência impossível. Ou seja, um eventual desabamento, incêndio ou outro sinistro levarão a um desastre ampliado pela fato de ser praticamente impossível levar ao local meios de resposta e socorro como viaturas dos bombeiros e ambulâncias.
Essas são as considerações inerentes ao risco. Entretanto existem outras de ordem ambiental e social.
Dessas, a mais relevante talvez seja o fato da verticalização praticamente tornar impossível uma solução para a favelização.
Enquanto a favela era eminentemente horizontal, era relativamente fácil construir conjuntos habitacionais para remove-la, pois a transformação de habitações de um pavimento em conjuntos edificações multifamiliares de 3 ou 4 pavimentos levava a uma otimização de área ocupada.
Com a verticalização não é possível qualquer otimização. Pelo contrário. Remover favelas com edificações de cinco ou mais pavimentos representa uma necessidade de expansão de área. Edificações populares com mais de 3 pavimentos tendem a se transformar em novos problemas devido à dificuldade e ao custo de manutenção.
Enquanto favelas tinham apenas casas de um pavimento, a redução de área ocupada se daria na proporção de 3:1, considerando conjuntos residenciais multifamiliares com edificações de três pavimentos. Ou seja, para cada 3 km2 de área de favela seria necessário 1 km2 para construção de conjuntos habitacionais.
Com o surgimento de prédios de cinco ou mais pavimentos, essa proporção se inverte. Já há favelas cuja remoção ou mesmo reurbanização demanda uma expansão de área. A proporção talvez seja da ordem de 1 para 1,7. Ou seja, para cada 1 km2 de favela seria necessário 1,7 km2 de área para construção de conjuntos habitacionais com edificações de 3 pavimentos.
Lamentavelmente existe uma forte corrente contra a remoção de favelas, que utilizando argumentos precários para esconder interesses escusos, argumenta pela manutenção do “status quo” e implantação de criminosos projetos populistas de “melhoria” tal como o Cimento Social do Bispo Crivella em parceria com o Governo Federal.
Nessa altura dos acontecimentos e do caos instalado não há como fazer intervenções sérias em favelas para urbanizá-las dentro de padrões legais e de dignidade.
Quanto mais tempo for adiada uma solução moral e tecnicamente aceitável, tanto maior se tornará o problema.
Felizmente os últimos desabamentos não deixaram vítimas. Mas é mera questão estatística.
Tendo em visto o crescimento do universo de construção leigas que potencialmente oferecem risco, aumentará também o número de desabamentos.
Aumentando o número de desabamentos fatalmente haverá mais vítimas.
Esse é um problema que por sua natureza, terá de se enfrentado por governantes e pela própria sociedade.

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