19/07/09 – A revolução moderna e a falência do modelo sócio econômico que vivemos.
Futuro, Geral, Internacional, Opinião
Em 30 de junho o jornalista e diretor da Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel, publicou um artigo sobre pirataria de direito autoral. A íntegra do artigo está disponível no jornal o GLOBO de 30/06/09 e no site da Associação Brasileira de Rádio e Televisão no link http://www.abert.org.br/D_mostra_clipping.cfm?noticia=126622.
Em síntese Ali Kamel critica o fato da “imprensa séria” ser obrigada a comprar serviços de publicações estrangeiras e pagar elevados direitos autorais sobre o material comprado, enquanto o material está disponível gratuitamente e é amplamente plagiado por sites, blogs e mesmo jornais de menor porte.
O mesmo se dá com uso de imagens, filmes, música, publicações, projetos e tudo que possa ser transmitido por meio eletrônico.
Com isso, todo material publicado ou transmitido por qualquer meio, passa a ser reproduzido na internet de forma não autorizada tão logo caia na rede.
Ali Kamel culpa as ferramentas para blogs e de compartilhamento de vídeos, fotos e músicas. Os fornecedores dessas ferramentas por sua vez, alegam que apenas produzem as ferramentas e que seus usuários é que são os usurpadores do direito alheio.
Mas tudo evolui. Os meios de comunicação que ora se queixam desse plágio ou roubo de direito autoral, também já subverteram toda lógica.
A própria organização Globo mantém o “Eu-Reporter” pelo qual capta gratuitamente, vídeos, fotos e matérias completas, que no fundo são utilizados com fins comerciais.
O Jornal e a TV não vendem notícia, mas sim publicidade. A notícia é apenas a isca. Logo, todo material gerado por colaboradores deveria gerar royalties para os autores, exatamente como as agências de notícias.
A Band News e CBN fazem pior, exortam seus ouvintes a participarem da programação enviando torpedos SMS relatando situações do trânsito, ocorrências, ou assuntos que possam compor a pauta da programação. O serviço é tarifado e o ávido colaborador que banca o repórter, que deveria receber pelo trabalho, paga R$ 1,40 por torpedo enviado.
Novos tempos. Essa é a questão.
Ali Kamel viu o problema por um prisma estreito e escreveu apenas sobre a questão da usurpação do direito autoral. É o aspecto que afeta diretamente o setor no qual atua.
Mas essa é apenas uma das nuances desse mundo caótico que quebrou barreiras e regras, criando novas relações e formas de gerar lucro.
Todas as empresas que foram concebidas dentro dos rígidos conceitos comerciais vigentes até o fim do século passado estão ameaçadas. Quem não se der conta desse fato, quebrará.
As agências de fotojornalismo passam por sérias dificuldades. Muitas já fecharam e outras estão no caminho de falir. E não é por pirataria, mas sim pelo fato do modelo de negócio ter se esgotado. Atualmente, praticamente cada indivíduo que tem um celular é um fotógrafo amador. Além disso existem câmaras amadoras que geram fotos profissionais. Esse contingente global e quase onipresente de fotografos espalhados pelo mundo associados à internet reduziram o tempo entre o fato e a notícia de forma tão avassaladora que é praticamente impossível manter empresas vivas nesse segmento. Ainda que a qualidade das imagens seja inferior, o que nem sempre é o caso, parece que a prioridade é o tempo reduzido entre o fato e a notícia.
No mesmo rastro irão radiodifuroas que proliferam via internet e já fugiram ao controle do governo e das agências reguladoras que não têm tentáculos que às alcancem.
Em breve surgirão difusoras de TV com programação própria que colocarão em cheque os maiores impérios da comunicação. É mera questão de tempo e aumento das velocidades de transmissão.
Qualquer um pode hoje montar uma rádio ou TV via internet sem ter que dar satisfação ao governo ou pedir uma onerosa concessão.
Todos os segmentos que possam ter alguma ligação com internet, ainda que indereta, terão que mudar a forma de atuar no mercado.
Estamos no início de uma nova era que está surgindo pela revolução da internet e criação do cyberespaço.
A internet ainda é caótica e terra de ninguém que armazena lixo misturado a produtos nobres. Mas sem dúvida está provocando a maior revolução do conhecimento e cultural da história da humanidade.
O fenômeno que estamos vivendo terá conseqüências muito mais revolucionárias do que a invenção da imprensa e tipografia por Johannes Gutenberg por volta de 1450.
A internet está criando uma consciência coletiva, que sobrepuja o poder da mídia e de governantes, quebra a identidade das nações e principalmente torna cada indivíduo mais visível e de certa forma mais influente diante do mundo. O povo aos poucos deixa de ser uma massa anônima que é conduzida. Com o tempo seremos todos cidadão do planeta Terra e cada indivíduo terá mais poder participativo no destino da humanidade.
Estamos falando de uma grande revolução que afeta não apenas direitos autorais, mas também todo modelo econômico, comercial global e social.
A internet está acelerando a globalização. Ainda existem Estados com territórios e identidades próprias, mas o cyberespaço, que é virtual, já criou um planeta real onde não existem fronteiras, impostos, taxas ou controle e as leis ainda são incipientes e nessa altura quase inócuas.
Enquanto Estados independentes continuarem legislando sobre comunicação multimídia, comércio eletrônico e crime cibernético em âmbito local, será difícil botar ordem no caos e o cyberespaço continuará terra de ninguém.
O cyberespaço é virtual, mas funciona em âmbito global e estranhamente influi no mundo real. Logo, somente uma legislação global e única, reconhecida em todos os países do mundo sem que existam adendos sazonais, será capaz de organizar tudo que gira em torno desse mundo paralelo que praticamente dominou o planeta.
Direitos autorais, exclusividade, propriedade intelectual e tantos outros conceitos legais que foram criadas para consolidar o modelo social e econômico que conhecemos, estão com os dias contados e precisam ser reinventados.
Por um lado é preocupante, pois não se vislumbrou ainda de que forma a pesquisa, as artes, a indústria cinematográfica, a indústria gráfica e outros segmentos sobreviverão.
O exemplo da indústria cinematográfica é muito simbólico. Não raro, filmes vazam antes do lançamento e são distribuídos em rede mundial de forma clandestina antes do lançamento. Mesmo quando isso não ocorre, os filmes uma vez lançados, precisam gerar retorno muito rápido e antes que cópias piratas saturem o mercado.
Não são apenas as questões da pirataria ou do plágio. A própria concorrência lícita é predatória. Estranho, mas real.
Atualmente qualquer um pode lançar seu blog, montar seu jornal virtual e mesmo sem plagiar ou copiar material alheio, concorrer com empresas de grande porte.
O mesmo se pode dizer de autores que já não precisam de editoras para se lançarem no mercado.
E pior, cada vez que uma editora recusa um livro, corre o risco de vê-lo distribuído gratuitamente na grande rede, pelo simples fato do autor ter decido disponibilizar sua obra. Em breve as impressoras domésticas evoluirão para pequenas gráficas o que permitirá imprimir livros encadernados sob demanda para aqueles que não conseguem ler online ou desejam expor um exemplar na prateleira.
Também não é diferente com a produção de música e filmes. Existem cada vez mais produtores independentes, bandas de garagem e produções caseiras que ameaçam a grande indústria, hegemônica no mundo pré-internet.
De forma abrangente, a atual vulnerabilidade de direitos intelectuais é um problema grave, e tem inúmeras conseqüências. Não há solução visível a não ser contratar um exército de fiscais e advogados que atuem em âmbito global, o que é impossível na prática.
Mas o lado bom da internet é seu potencial de difusão da cultura e do conhecimento. Além disso, a internet é um instrumento fundamental que pode valorizar o indivíduo e seu trabalho. O pequeno produtor, passa a ter a oportunidade de concorrer com empresas de grande porte. Toda a rede de intermediários tende a quebrar, pois a internet faz a conexão ponto a ponto entre produtor e consumidor. Esse rede de negócios envolvendo indivíduos ponto a ponto trará grandes mudanças sociais e nas relações de trabalho.
Toda revolução gera mudanças, derruba reis, impérios e monopólios. Mas essa que está se travando é diferente das demais que a humanidade já viveu. É muda e poucos se deram conta que já está em curso.
Não existe violência, não há armas e não existe um comando revolucionário central que planeja ações, emite diretrizes e ordens ou as executa.
Não há portanto a possibilidade de todas os prejudicados pertencentes à velha ordem sócio-econômica se unirem para uma defesa ou contra-ataque coordenados no sentido de impor o retorno do sistema no qual se criaram, sobrevivem ou enriqueceram.
Em parte a revolução que está acontecendo é fruto da consciência coletiva que está se formando no cyberespaço. Ainda é uma “criança” e de forma instintiva busca uma sociedade mais equilibrada e justa. As idéias ainda estão turvas e a “criança” está tateando um pouco sem rumo. Contudo, já se percebe que questões globais que afetam a coletividade vêm ganhando espaço e reações mais pró-ativas.
Em outro momento essas questões passariam por diversos crivos como o Estado, a mídia e toda uma intrincada rede de interesses. Dependendo da vontade das forças predominantes as questões seriam conduzidas de uma forma ou de outra, independente da vontade dos povos.
É certo que não há como se opor a esse revolução que completará seu ciclo obrigando o mundo a repensar não apenas o modelo econômico e formas de gerar riqueza, mas principalmente toda estrutura social.
Tudo que afeta segmentos produtivos que geram lucro, tem reflexos sociais. Estão jogo empregos, fortunas, estilo de vida, relações de trabalho e toda uma estrutura social que foi construída e se consolidou desde a revolução industrial.
Por um lado é um grande desafio que temos pela frente e quer desejemos, quer não, essa mudança produzirá estragos até que um novo modelo surja e seja ajustado para passar a vigorar.
Por outro lado é uma oportunidade para construção de um mundo mais justo onde o destino da maioria seja decidido pela maioria e não por pequenos grupos que defendem interesses minoritários.
Nesse sentido, é provável que a relação capital e trabalho também sofra um ajuste.
A consciência coletiva que está sendo gestada no cyberespaço mostra indícios de que todos esses aspectos já estão tomando forma e moldando mentes que por sua vez realimentam a consciencia coletiva.
Talvez essa revolução feche seu ciclo muito antes que possamos imaginar.
Gostou do que leu? Não deixe de assinar nosso RSS feed!
- Leia também:
- 18/05/08 – Internet e a grande revolução.
- 31/03/10 – Trabalho e vida em tempos modernos.
- 20/02/09 – Uma arapuca chamada NET Banda Larga.
- 27/12/2009 – Fim de 2009 e feliz 2010. Mas será só isso?
- 12/03/08 – Trabalho: Lei 11.644/08, um delírio.
- Célula de Hidrogênio
- 26/12/07 – Falência do ensino e destruição do futuro.
- Carro Movido a Hidrogênio
- 13/04/08 – Biocombustível de petróleo!?
- Fotografia, arte e revolução.
Enviar por e-Mail
Imprimir




