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31/03/10 – Trabalho e vida em tempos modernos.

Em 31 de março de 2010 às 10:46 | por Bruno Engert Rizzo | 1.721 leitura(s)
Brasil, Opinião

Mais do que nunca na história da humanidade vivemos numa sociedade de fachadas.

Marketing e teatro passaram a ser a essência das relações e estão presentes em praticamente tudo que nos cerca.

Lamentavelmente, todo este jogo que beneficia uma minoria, transforma a vida da grande maioria dos cidadãos do planeta Terra num calvário, onde viver o dia a dia deixou de ser prazeroso e passou a ser uma obrigação dolorosa.

De forma genérica, é assim nas relações entre governo e governados, entre produtores e consumidores e patrões e empregados. As exceções ainda são um grupo minoritário.

Na área da política, teatro e marketing sempre predominaram e não é de hoje que políticos se utilizam de todos os meios para criar uma imagem completamente fantasiosa daquilo que foram no passado, são no presente e pretendem ser no futuro. No fundo, trata-se de um estelionato, pois a maioria dos políticos mente sobre passado e presente, e deliberadamente engana sobre intenções futuras. Promessas de campanha, tecnicamente podem ser entendidas como um contrato coletivo. Mas neste campo estamos longe de uma evolução positiva, pois vivemos numa sociedade que ao mesmo tempo nos satura de informações e gera alienação em massa.

Estranhamente, na relação produtor x consumidor, o lado mais fraco já encontrou mecanismos de proteção e cada vez mais o marketing terá que se aproximar da realidade. Talvez o fato tenha relação com causa e efeito, que são mais visíveis e fáceis de identificar. Quando um produto ou serviço não corresponde à expectativa gerada pela publicidade, é fácil deixar de comprá-lo numa próxima oporunidade.

Mas política e consumo não nos ocupam 24 horas por dia. Na prática e em média, dormimos um 1/3 de nosso tempo de vida e dedicamos outro 1/3 ao trabalho. O restante do tempo é dedicado a locomoção, necessidades básicas e outros afazeres. Uma parcela desproporcionalmente miserável é dedicada a efetivamente sentir prazer em estar vivo e literalmente curtir a vida.

Para algumas pessoas, e não são poucas, viver passou a ser um regime que se assemelha a uma escravidão em regime semi-aberto. Ou seja, o indivíduo tem apenas o direito de dormir em casa. No restante do tempo é escravo de obrigações.

Ainda que pareça um desperdício dormir 1/3 da vida, esta é uma necessidade biológica que ainda não sabemos contornar.

Mas se aquela parcela do tempo de vida dedicada ao trabalho fosse prazerosa, a vida poderia ter outro sentido. Não se trata de encurtar a jornada de trabalho, mas sim, mudar o ambiente e as regras para que o trabalho não seja um castigo.

Aqui cabe um parêntese para lembrar que todos os avanços tecnológicos foram explorados de forma equivocada pela sociedade.

Há 20 anos um engenheiro calculista levava alguns meses para desenvolver um projeto estrutural de um grande empreendimento. A elaboração do projeto executivo consumia tempo e ocupava toda uma equipe de trabalho.

Com a evolução tecnológica, em especial do ramo da informática, desenvolver um projeto estrutural de um grande empreendimento ficou reduzido a algumas semanas de trabalho com um equipe reduzida. Profissões como desenhista e projetista praticamente foram extintas.

Tudo seria maravilhoso, não fosse o fato desta sobra de tempo ter sido preenchida com mais trabalho com uma remuneração mais baixa. Ou seja, os benefícios do avanço tecnológico não foram repartidos de forma a beneficiar também aqueles que efetivamente trabalham. Outros se apropriaram desse tempo e dos benefícios.

Pior ainda, de forma genérica, os tempos de referência para cumprir tarefas complexas, mudaram, tomando-se por base a velocidade de bits e bytes. Tudo passou a ser para ontem com exigência de padrão de qualidade de trabalho mecânico.

A grande questão é que não somos máquinas. Pelo contrário, somos humanos. Progresso, tecnologia, mecanização e automação, deveriam nos trazer conforto, saúde e tempo para aproveitar a vida.

Aqui voltamos ao assunto do artigo que é a sociedade de fachada.

Uma pesquisa realizada em âmbito mundial pela Right Management, mostrou um resultado interessante. Qual seja, que apenas 34% dos funcionários em organizações com mais de 50 funcionários se identificam como totalmente comprometidos, enquanto 50% se identificaram como completamente sem comprometimento.

O estudo revela ainda que 9% dos entrevistados indicam que possuem comprometimento com suas organizações, mas não com seus trabalhos e 7% indicam que estão comprometidos com o trabalho, mas não com a organização.

Os resultados da pesquisa talvez sejam surpresa para diretores de Recursos Humanos que vivem encastelados em seus gabinetes e muitas vezes alheios à realidade, alimentam-se de marketing e teorias, baseados em psicologia e estudos comportamentais que funcionam bem em ambientes ideias de laboratório.

Os processos seletivos com dinâmicas de grupo viraram um circo de resultados duvidosos que não raro erram o alvo, pois uma das características mais fortes de indivíduos com desvios de caráter e pesonalidade, é a dissimulação.  Como a internet oferece farto "treinamento" para entrevistas e dinâmicas de grupo, os processos seletivos se tornam mais uma questão de aprender o que pode ou não pode ser dito e feito.

Profissionais competentes e equilibrados que nunca tenham passado por uma dinâmica, muitas vezes são preteridos por pequenos deslizes mal interpretados ou por serem sinceros.

O exemplo típico é a clássica pergunta sobre o emprego ou chefe anteriores. Só um néscio despejaria as mágoas ou faria qualquer crítica. Por mais fundamentas e justas que fossem, o entrevistado estaria sumariamente eliminado do processo seletivo.  Contudo, é evidente que quem muda de emprego, muda por algum tipo de insatisfação. Se a pesquisa anteriormente mencionada revela que os insatisfeitos representam uma fatia de mais de 66%, é de se estranhar que entrevistados nunca tenham tido problemas com empregos e chefes passados.

Além disso, é cada vez mais frequente em grandes empresas impor a funcionários um processo de lavagem cerebral que consiste de um conjunto de ações como enfadonhas palestras de pessoas famosas e casos de sucesso, estímulo de atividades coletivas fora do horário de expediente e submissão dos funcionários a ridículas e constrangedoras dinâmicas de grupo para supostamente “integrar esta grande família”, mapear competências, identificar potencialidades e se possível entrar na mente dos participantes.

O objetivo desta lavagem cerebral é impor padrões de comportamento, moldar o indivíduo e tentar transformar cada funcionário em marketeiro da empresa na qual trabalha.

Todo esse processo é uma violência que atenta contra princípios de respeito ao indivíduo e à privacidade, além de ser uma exploração vil. Funcionários que não aceitam as regras deste jogo, atualmente considerado padrão na administração de corporações, ou que sejam mal avaliados nas dinâmicas de grupo, são considerados “anti-sociais” e descompromissados com a empresa. Consequentemente ficam marcados, tendo a evolução funcional obstada e se tornam alvos prioritários de demissões.

Quesitos como capacidade técnica e elevados valores morais têm pouco valor neste jogo que privilegia fachada, falsidade e teatro. A prova mais contundente desta realidade são as dinâmicas de grupo que impõem situações e um relacionamento forçados, desrespeitando privacidade, intimidade, adversidade, preferências e vontades individuais. Mais uma vez, levam imensa vantagem os dissimulados.

Deste conjunto de práticas, surgem as grandes distorções que transformam trabalho em calvário.

Mais do que nunca missão, visão e principalmente valores, se transformaram em peças publicitárias enganosas.

Ética, transparência, efetividade, competência, respeito, humanização, compromisso social, respeito à vida, respeito à diversidade e outros características politicamente corretas, costumam estar presentes no discurso e cartilha de todas as empresas. Mas ainda, no bojo dos valores costume vir escrito algo como “orgulho de ser empresa X”. O quesito ética está presente em 100% das cartilhas das grandes empresas. Mas os escândalos megalômanos de corrupção e fraudes envolvendo estas empresas, frequentemente estampadas em jornais, mostram que  este valor não está presente no núcleo decisório destas empresas.

Quanto ao orgulho de pertencer a empresa é uma resultante que naturalmente seria construída a partir do respeito aos demais valores.

A adoção deste sistema de administração que tenta desconstruir a personalidade para implantar no indivíduo o padrão da empresa ou corporação, atenta contra todos os valores normalmente estampados nas cartilhas destas empresas e corporações.

Além disso, o modelo atual de gestão tem uma série de práticas correntes que indiretamente atentam contra o ambiente de trabalho e ferem valores elementares. Exemplos típicos são o estímulo da competitividade que não respeita barreiras éticas, muitos dos benefícios indiretos computados como vantagem com um peso desmesurado, equipes de trabalho subdimensionadas e cronicamente sobrecarregadas, planos de evolução de carreira incompatíveis com necessidades da vida real, e uma lista sem fim de práticas consideradas aceitáveis, mas que não resistem a uma análise crítica.

Via de regra, o chefe que deveria ser um líder com capacidade de produzir resultados, mas ao mesmo tempo zelar pela saúde mental, financeira e conforto dos subordinados, é escolhido por critérios que desrespeitam todos os valores elementares. Ao contrário do discurso, o valor supremo que norteia a escolha dos chefes que são impostos como “líderes” é a obtenção de resultados a qualquer custo e sacrifício. Daí surgem as metas, que via de regra demandam trabalho a exaustão para serem atingidas.

O chefe do chefe é pior e conforme a pirâmide sobe, mais e mais os valores são deturpados e a prática se afasta dos mandamentos da cartilha da empresa.

Mas esta situação está em total descompasso com a política da empresa, o que leva a conclusão que o pessoal de RH é alienado ou deliberadamente participa da construção de uma farsa. Se todas as entrevistas, dinâmicas de grupo e testes psicológicos não são capazes de perceber aberrações como chefes cujas atitudes ferem frontalmente ética e valores elementares, fica a dúvida se humanizar as relações de trabalho para reter bons funcionários, faz parte do elenco de atribuições do departamento de RH.

Em pleno século XXI com ciência e tecnologia permitindo ao homem explorar os confins do universo e os mais profundos e recônditos segredos da mente e alma humana, é inadmissível que trabalho não seja sinônimo de prazer.

Pelo contrário, cada vez mais nos aproximamos de um sistema de escravidão em regime semi-aberto, no qual o indivíduo pertence à corporação devendo trabalhar num turno, produzir marketing gratuito nos demais e no tempo restante se alimentar e dormir para manter a saúde e não afetar o desempenho no trabalho.

É interessante que a farsa chega ao extremo de revistas dedicarem edições inteiras à publicação do ranking das melhores empresas para se trabalhar. A grande questão é que todo o sistema gera pressões que mascaram resultados. Pesquisas que produzem o chamado Índice de Felicidade no Trabalho ou similares, na maioria das vezes não são respondidas com sinceridade, pelos mais diversos motivos.

Primeiro há que se considerar que os funcionários pesquisados passaram por um processo de lavagem cerebral, cujo objetivo é moldar o indivíduo à corporação e convencê-lo que ele trabalha na melhor das instituições. Aqueles que não se amoldam são alijados, logo a amostra é viciada.

Depois existe a desconfiança e insegurança do funcionário que pode não responder o questionário com sinceridade. Não raro, funcionários considerados exemplares e portadores do estandarte da empresa, na intimidade e certeza da preservação do anonimato, literalmente amaldiçoam as empresas nas quais trabalham. Por último, nem todas as perguntas têm relação com felicidade.

É lamentável que em pleno século XXI, estejamos vivendo o lado mais desumano de ficções científicas sombrias que previam sociedades dominadas com indivíduos internamente insatisfeitos. Apesar de todo avanço de ciência e tecnologia a humanidade ainda está engatinhando no desenvolvimento espiritual.

Se estivéssemos caminhando pelo menos pari-passo, por certo o mundo seria muito melhor e trabalhar seria sinônimo de prazer e aproveitar a vida.

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6 Respostas para “31/03/10 – Trabalho e vida em tempos modernos.”

  1. C.S.D. escreveu:


    Cara voce só pode estar descrevendo a empresa onde trabalho. Só faltou botar o nome do meu diretor que é um idiota, incompetente, arrogante e puxa saco dos membros da diretoria. Já imprimi o artigo inteirinho em três cópias e coloquei em envelopes da empresa, é óbvio. Madei uma cópia para a anta do meu diretor, uma para o chefe de RH e outra para a diretoria administrativa da empresa. Estou vingado. Parabéns!!!!!!


  2. Malu escreveu:


    Meu nome verdadeiro não é Malu e peço ao administrador do site que preserve meu nome e email. Quero apenas dizer que tenho um cargo executivo relativamente alto numa multinacional bem ranqueada na lista das 200 melhores. Vivo rigorosamente o que foi descrito neste artigo. O discurso do diretor de RH é completamente incompatível com o tratamento que a empresa dá aos funcionários. Quanto às dinâmicas de grupo chegam a ser de uma violência moral indescritível, pois nos obrigam a fazer e dizer coisas que transgridem profundamente nossa intimidade e ferem nossa liberdade de pensamento. A maioria dos colegas de trabalho se sente constrangida, mas ninguém ousa se insurgir. tomara que os diretores da minha empresa, especialmente o de RH, leiam o artigo e reflitam sobre toda a hipocrisia que promovem na empresa.


  3. A.F.S escreveu:


    A empresa onde trabalho também está entre as 50 "melhores" para se trabalhar. Nos discursos do diretor de RH e do nosso diretor presidente a empresa mais parece uma grande ação entre amigos ou de um clube onde todos se reunem para trabalhar felizes. O objetivo acima de qualquer outro é humanizar as relações de trabalho. Estranhamente as diretrizes reais parecem emanar de outros seres, pois sempre estão na direção oposta destes discursos. Jornadas de trabalho não são respeitadas, horário de almoço idem, as equipes estão cronicamente subdimensionadas e por aí vai.

    Agora, mais uma vez resolveram cortar custos. Como sempre vão cortar onde não devem e não podem. Resolveram que o pessoal mais antigo e experiente ganha salários muito altos. Esquecem que é este pessoal que mantém a empresa funcionando dentro de padrões de qualidade exigidos pelo mercado.

    Mas simplesmente enviar cartas de demissões desmonta a farsa da melhor empresa para se trabalhar e blá, blá, blá...

    Então a diretoria montou a lista dos chamados elegíveis para a demissão / aposentadoria incentivada e fez um lindo discurso dizendo que esta é a forma que empresa encontrou de premiar aqueles que por longos anos foram dedicados ao trabalho. Ou seja inverteram tudo. A demissão incentivada passou a ser veiculada como um grande prêmio.

    O detalhe é que já existe a lista dos que devem ser “convidados” a aceitar a demissão incentivada . Cada um dos elegíveis está sendo chamado para uma conversa ao pé do ouvido, onde lhe é dito que se não sair por bem, será demitido de qualquer forma e não ganhará o “incentivo”.

    Estão cortando custos onde tecnicamente não podem. A empresa atualmente já é uma das que tem os mais elevados índices de queixas dos consumidores pela má qualidade dos serviços prestados. Agora com a demissão da geração experiente e admissão dos chamados menudos, a tendência é a piora numa escala absurda.

    De fato, vivemos o mundo da fantasia.


  4. MMC escreveu:


    Não é bem assim. Trablaho numa empresa que tem aproximadamente 530 funcionários. A emprese oferece benefícios reais e efetivamente investe no conforto dos funcionários e no ambiente de trabalho. Meu chefe é amigo da equipe de trabalho e todos se ajudam mutuamente. Sou feliz no trabalho.


  5. Meu nome e ninguem escreveu:


    Menu nome é ninguém, mas ainda sou alguém que trabalha por necessidade. Construi uma carreira na área de vendas. Depois de mais de 20 anos sendo pisoteado exatamente como descreve o artigo, cheguei ao topo. Hoje gerente numa multinacional do ramo de refrigerantes. A lavagem cerebral é tão pesada e a coações são tantas, que ninguém imagina. Tive um grande amigo que foi demitido só porque ao almoçar com a família e sua mesa foi fotografada com a latinhas de bebidas da concorrência. Aqui é perigoso falar, pensar ou agir fora das "regras" da empresa. Demissão certa! Quando olho para tras me pergunto se valeu a pena passar o que passei. Meu nome é ninguém e caminho para ser ninguém. Nota 10.


  6. Marco Antonio escreveu:


    Já passei dos 50 e estou rodado. Se fizer a conta já trabalhei em mais de 10 empresas de todo porte. Vivi boa parte do que está escrito nesse artigo. Já fui pisado e por ter embarcado na onda, já pisei (do que me arrependo profundamente hoje). Lamentavelmente é como diz o artigo, preciso trabalhar para pagar contas, sustentar a família, manter uma fachada de profissional de sucesso e por aí vai. Quando olho para tras, tenho a impressão que minha vida se resumiu a trabalhar. E não foram os melhores momentos. Não vi meus filhos crescerem e se não fossem as artoses, nem teria percebido que envelheci. Tempos modernos mesmo.


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