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Néscio Apedeuta

Meu nome de veras é Néscio Apedeuta. Néscio por parte de mãe e Apedeuta por parte de pai. Mas o povo me chama de Nércio.

Primeiramente quero agradecer ao dono desse nengóço por deixar eu escrever aqui para todo Brasil.

Eu nasci pobre e cresci miserávi, nem sei bem quando, pruque num tenho registro.

Hoji finarmente, com a graça do meu Padinho e do Lula tenho o que comer.

Meu pai fazia muitcho gosto deu estudar a modo de ser dotor. Mas eu queria mesmo é ser dono de uma carroça com lata de água pra busca água no açude pra vende. Di primero, eu carregava as lata no lombo. Meus cumpadre me pagava 10 centavo por lata. Dize o povo da língua mardosa, que eles vendia a água por muitcho mais, mas isso eu não sei.

Quando eu finarmente consegui comprar o jegue, mais a corroça e as lata, o lamero secou.

Daí nós tudo saiu de lá com disitino pro Rio de Janeiro. Mas no caminho uns sordado me pergunto se eu era brasileiro. Respondi que sim com muitcho gosto e eles me deram roupa nova e disseram que agora eu era sordado também e que o Brasil precisava de mim pra combate uns tal de guerrilheiro. No iniço foi muitcho bão. Pruque tinha comida todo dia e água inté pra toma banho todo dia.

Mas meus amigo vivia mangando deu e aprontando. Tudo que dava errado no quartel eles botava a curpa ni mim. Mas isso não era tão ruim pruque eu só ia preso arguns dia e tinha água e di comê todo dia.

Quando eu não tava preso, tirava serviço no paiol. Aí antonse um dia, uns amigo levaram 7 fuzi e dois caxote de bala. Eu não sabia que meus amigo era tudo ladrão. Resurtado, daquela vez fui preso di verdade pruque o coroné disse que eu robei os fuzi ou era cúmprice. Ai fiquei preso muitcho tempo. Foi ai que aprendi a lê e iscrevê.

Mas um dia veio uns amigo com a artorização do coroné, dizendo que se quisesse ser o batedô do pelotão, eles tinha ordi de me sorta.

Perguntei em quem ia bate e se era pra bate de verdade. Sim, pruque eu so magro mas cabra muitcho macho e só bato se for pra vele. Os amigo disseram que num precisava bate muitcho, que na verdade nois ia anda na mata e eu ia anda na frente. Num entendi bem como ia ser batedô sem bate muitcho, mas eles disseram que ia ter comida e água. Antonsi, aceitei.

Mas eu acho que meus amigo tava mangando deu. Pruque logo na primeira vez que nós entro na mata, eles deixaram eu andar muitcho na frente. De repente começo a pipocar tiro de todo lado. Aí meus amigos sumiram e vinheram os tais guerrilheiro. Eles me prenderam. E me bateram. Aí pensei, foi por isso que me escolheram pra betedor. Mas eles era muitcho e resorvi num bate neles.

Um tar de Genuinio me perguntou o que eu sabia faze. Eu respondi: “sei carregar água.” Daí eles disseram que se eu quisesse vive, tinha que carregar água e tudo mais pra eles. Fiquei muito feliz. Inté pruque pararam de bate e disseram que num ia me sangrar igual fizeram com o outro batedor.

Assim passei um bom tempo. Pra onde os guerrilhero ia, la ia o Nércio carregando a tralha.

Eu já tava inte gostando e fazendo umas amizade. Mas um dia eu tava com o grupo na mata carregando a tralha, e começou a pipocar tiro. Meus amigo saíram correndo para todo lado. Eu cheio da tralha num consegui correr muitcho. Resurtado fui preso pelos sordado do exercito.

Aí veio di novo o coroné. Disse que eu ia fica preso pruque roubei, os fuzi, pruque desertei e pruque virei guerrilheiro.

Fiquei mais um tempo preso, inté que veio uma tar de Anistia que me sorto. Eu nunca conheci essa moça, mas agradeço muitcho a ela.

Quando saí vim pro Rio de Janeiro. Aqui quais morri di fome pruque tudo mundo já tinha água e ninguém queria comprar de mim.

Aí montei um nengócio novo. Eu carregava pedra, cimento e areia do pé do morro pra favela. Cumecei até a ajuntar dinhero a modo di comprar um jeguezinho pra me ajudar na lida. Aí vinheram uns cumpadre amigo meu e pediram pra eu deixa eles ajuda. Botei eles tudo pra carregar pedra cumigo. Mas um dia veio uns macaco da farda azul e me prenderam. Dessa vez entrei no cacete di verdade. Apanhei muitcho. Desde o dia qui mi jogaram na gaoila do carro inté terminá o tempo da cadeia. O homi da capa preta disse que eu era o chefe da quadrilha que carregava droga nu morro. Eu respondi que no meu lombo só carregeui areia pedra e cimento, mas fiquei preso muitcho tempo. Lá foi ruim pruque o de come e bebe não prestava muichto e tudo que meus amigo aprontava eu era o curpado.

Um dia fui sorto. Aí uns cumpanhero antigo mi levou pru PT. Minha vida miorou dimais da conta. Fui trabaia prum tar de Delubo. E quando eu disse que eu só sabia carregar, ele disse qui tinha trabaio facir pra mim. Eu só precisava levar uns invelope, umas caixa, pacote e umas mala pra cá e pra lá.

Foi aí que conheci u Lula. Etcha moço bão. Gosto dimais dele. Principarmente quando ele dizi com orgulho que é anarfabeto e hoje é presidente. Tarvez eu também seja presidente um dia, até purque eu já num so anarfabeto. E iguarzinho a ele, so vítima dos cumpadre amigo.

U nengócio de carregação inte que ia bem. Só que um dia acabaram com u nengócio e eu fiquei sem trabaio di novo. Mas u Lula i u Delubo foram muitcho legais.

Disseram que eu não precisava me preocupar com mais na vida que eles ia me dar duas borsa família e pagar as conta de água todo mês, se eu nunca contasse o que tinha nas mala, envelope e caixote e se me afastasse pur arguns tempo do PT.

Issu foi muitcho facir. Purque eu não sabia mesmo o que tinha nas mala.

Hoji so o homi mais filiz du mundu. Num passo fome, nem sede e virei escrito. U moço desse nengóço até mi paga o armoço toda vez que eu escrevo um papel novo pra ele. Isso é muitcho legal. Na verdade purque eu só pego as carta que escrevo prus meus amigo e tiro uma xeroca e dou para ele.

30/03/09 – Néscio no PAC.

Em 03 de março de 2009 às 5:00 | por Néscio Apedeuta
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15/03/08 – Bolsa Ditadura

Em 15 de março de 2008 às 6:57 | por Néscio Apedeuta
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15/07/07 – Néscio com Dengue

Em 15 de julho de 2007 às 9:27 | por Néscio Apedeuta
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15/06/07 – Néscio General

Em 15 de junho de 2007 às 6:56 | por Néscio Apedeuta
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01/05/07 – Apagão

Em 01 de maio de 2007 às 6:54 | por Néscio Apedeuta
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